DEGRAU

Cresça e apareça. Pereça a seu tempo, nunca antes.
Que o quedante se restabeleça de ares beligerantes.
A cada passo, deixe-o passar, laço não foi feito para atar.
Atravesse respirando, alteando o pensamento, bem livre.
Vire-se do avesso, fazendo brotar da aversão um verso.
Filtre. Imerso à verdade, não há perigo.
Pois mão, amigo, sempre se estenderá.

PAOLA

ANJO RECAÍDO

O ardor no peito do santo de barro, pela possibilidade da queda de seu alto andor, traduz a essência do anjo caído que se regenera. Esfacelamento que leva à catação de cacos, moldagens novas através de um apalpar sui generis, bem traduzido no filme Ghost – do outro lado da vida. A exemplo, Lúcifer nunca foi tão ferino assim, tudo é farol ou farsa canalizada por dogmatismos. Tudo questão de ponto (luminoso ou trevoso) de vista, a depender dos mantenedores de sua própria ancoragem. Daí, veio a substância que passou a lumiescer na bunda de singelos vaga-lumes: luciferina (do latim lucifer, “que ilumina”), uma pigmentação emissora de luz natural. Pisca-piscas verdejantes.

Só com desilusão parece mais capaz de se aproximar da visão de um quarto olho. Se houver, cabe na passagem de um inferno labiríntico em que me procuro com mais força e razão que antes, tudo pela certeza do paraíso à espreita. Oportunidade de focar e transcender no luto que se cumpre, comprimindo a verdade em porta estreita, entre arriscar e riscar um novo nome de dentro do peito. Em pulsação, ao leito, recebo o resultado desse eletrocardiograma da sorte: traço uma lista das expectativas paralisantes, cheia de altos e baixos. Montanha russansara. Ou fica ou se esvai. De tanto cair-se, levanta. Tontamente, apruma, arruma-se e sai.

PAOLA

PROVA DE AMIZADE

A poesia é minha melhor amiga. Cúmplice de olhares, repagina meu tédio, lê dentro da alma a cura que existe e a áurea de me ser santo remédio. Quem sumiu de mim, continua fazendo parte, mesmo que à distância, à base de luto ou de briga, perdão ou despedida. Partiu-se, porque somos juntos nós desatados. Traiu, porque não soube repartir o pão dos casados. Descuidou, por nunca precisarmos ser lactantes. Os diletantes, quase sempre, tornam-se vampiros de nossas melhores energias. Orgias do imperceptível. Não sabem viver sem o colostro, muito menos sem o colapso. Por isso, um lápis me basta à ponta dos dedos que não aponto. O ponto final é o maior segredo. Um ápice. A escrita nos permite continuar na próxima pauta invisível. Quando nos pomos tristes, chora a linha conosco, ouvinte de nossos clamores e desacatos. Pudores não existem, mas gozos extraordinários. O silêncio cabe na foto de um casal que toma sorvete no shopping, gélido um para o outro, na ânsia por uma audição remake de um filme dos anos 80.

No papel em branco encontro mais entusiasmo que as falas tagarelas de bonitinhos sem-sal. Abro as janelas palatáveis à herança ancestral de ainda conseguir alcançar estrelas mornas. O brilho sempre há de convir que o que virá não mais importa. Fecho a porta e escrevo o risível dentro de meu próprio vácuo. Ar comprimido pelo diafragma que milimetrifica a meditação. Atenção a quem, em vão, para quê? Os que necessitam ser reavivados pela história fazem parte de uma minoria que vence a cada dia em manchete escolhida desses jornais. Sensacionais são os vulcões dando sua lava à vista e as paisagens que se modificam em consonância ao comportamento do homem frívolo. Ser poeta, hoje em dia, está com as horas contadas, a música perdida. A grande diferença é que ele, mesmo incomodado, prossegue vivendo muito mais que os outros. Como saber? Nesse jogo de dados, só se vê a própria sorte escrevendo. Imortal enquanto fure a dor nos olhos.

PAOLA

MARULHO DE PEDRA

Petrifico-me ao musgo, sugo o sumo de um lago, largo o medo dentro do rio, sorrio ao vento tal afago. À salvo no verde, a única parede que herdo é constituída por águas límpidas. Atravesso era sem espera de erva daninha. Sou Hera sozinha, amiga do Amor, amante do acaso que dizem que não é. Eu vi um peixe a passeio no raso, em asseio de algas tal vaso de plantas, vedantas, aquário. Redoma de vidro inquebrantável, porque livre. Sem estilhaços de corte, nem cortesia em espalhafatos. Argila molda cada passo no instante do piso. Fundo de lama está para lótus, assim como a sola palmilha o desenho de pés na encruzilhada. Sou estátua tomada em banho áureo, revestida do mármore Carrara, Violeta Parra dos planaltos alienígenas. Quem meu gene regenera? Que raízes meu calcanhar plantou? Ísis de Ícaro, uma mescla de deuses, porque quem me vê não tem nada. Nada no teu mundo e, então, persevera. Cada um põe o Sol à sua maneira. Torra, cega, arde ou cresce. O nascer é quem verdadeiramente me conhece.

O TROCO

Pare de dar o que você não tem (vintém, alguém, saudade). Respeite o limite sem esperar gratidão ou reconhecimento neste plano ou realidade. Quando a gente esquece o imediato, em ato constante, surge o Amor gratuito. Quem se venderia a apreço tão baixo? Isso não significa também que se deva poupar esforços para tudo na vida, mas aplique a energia movente nas coisas certas. Corrente quebrada na praia não navega para longe, ancora qualquer espinha ereta. Deixe de se escorar nas impossibilidades. O acúmulo da ferrugem cria micro-organismos que não mais lhe cabem e lhe quebram galhos feito melhores amigos. Não se engane. Planeje-se e plane. Sim, você sabe bem quais são as marés de cheia, então reme rumo a elas. Elos se rompem na imensidão. O mundo não requer provas da sua bondade – bomba de efeito ‘cristão’ ou maestria através de propriedade verborreica, basta saber o quanto é bom para si mesmo e o quanto é capaz de perdoar sua própria fantasia. Desmascare sem demagogia, embora do que hoje se ri, quem diria, ontem jamais conseguiria. Siga seu fluxo. Luxo é caminhada, não caminho. Abandonar todos os adornos como forma de jornada. À palha, fogo alteia. À saia plissada, o desejo escamoteia pelas pernas roliças da moça. Não seja mosca morta, abra todas as portas como se fossem asas. Os seres de baixo reconhecerão sua austeridade portentosa e respeitarão a entrada feito cérberos obedientes.

PAOLA

MUDANÇA

Não, não intento mudar o mundo. O fundo do meu abismo é mais largo. A ele me lanço e, com ele, trago o melhor que posso, do fosso a um rio, poço profundo para mergulhar, nadar e emergir. Ontem, chamaram-me de gorda e pensei sobre a beleza própria das baleias. Sendo assim, prefiro afundar esse barco com remendos, esguichando águas insólitas sobre as lentes de um Sebastião Salgado. Seu olhar frio parece caudaloso, mas constatações sobre qualquer inexatidão não lhe faz mais perfeito que o mar. Tudo parecerá revolto se assim você está. Em que lugar você se respeita na hierarquia? O que sua franquia de tarifas mal-pagas diria se fosse acabar? E se seu mundo de rodas gigantes parasse no giro? Vomite o céu, atire na terra, respire o ar e voe sobre a pipa do ego crasso, tal cego que mal sabe distinguir as cores, as flores para os sem-narinas, tal prego que não sabe sustentar os Cristos a que mesmo se opõe. Muito se sabe sobre uma coisa em que pouco se acredita. Sinto muito sobre a sua inteligência.

PAOLA

ARQUITETURA

Quebrar a munheca no murro
Urrar contra a parede
E perceber que se pode muito mais atravessando sonhos
Que blocos de pedra
Cabeça dura, burra de tanto intelecto
Cenho instrospecto dentro do lago
Onde magos e narcisos derretem suas poções
Porções de máscaras
Debulhadas em lágrimas de ouro
Que não valem o tesouro das mágoas

Renovar nas águas é serenar a fronte
Fonte de outras nascentes
E assim ver crescer a raça destemida
Bebendo do caldo do caos para se reconstruir um tanto
Cessar o martelo do passado nada santo
No passo atrasado que espreita distraído
Enquanto tropeça nos próprios escombros
Ganges, Escamandro, Nilo
Ser sibilo dos novos tempos
Todos os elementos edificantes

PAOLA

REPOUSO

Quando silenciamos, ouvimos os silvos benfazejos das respostas. Mantras impressos nos sulcos da realidade. Tudo à mão, bonança e gratidão dentro de nós. A sós com o todo que há, grandes e pequenos sob a ótica do reconhecimento. Momento de presença na crença de nada, só confiança. Para cada perspectiva, um prisma vasto. De cima ou de baixo, vê-se a amplitude que permeia nosso ser. Estamos, do nódulo da árvore à casca de noz, nas cercanias da eternidade. Asas gordas de ventania pesam levezas em rastro, criança pequena ensina sóis de aurorescer, banho de pé no mar, cantar dentro da gruta, ecoar o olhar do outro dentro do peito, fazer leito no precipício da liberdade, acolher a saudade como forte indício de que vivemos outras eras, mesmo que há poucos instantes. Ressonantes de harmonia, abraçados pelo Amor ao cosmos. Micros e macros que somos, formiguinhas pousadas em gotas que ampliam até estourar tamanho. Do que somos feitos? Espíritos elásticos. Caberíamos dentro de um sonho.