O TROCO

Pare de dar o que você não tem (vintém, alguém, saudade). Respeite o limite sem esperar gratidão ou reconhecimento neste plano ou realidade. Quando a gente esquece o imediato, em ato constante, surge o Amor gratuito. Quem se venderia a apreço tão baixo? Isso não significa também que se deva poupar esforços para tudo na vida, mas aplique a energia movente nas coisas certas. Corrente quebrada na praia não navega para longe, ancora qualquer espinha ereta. Deixe de se escorar nas impossibilidades. O acúmulo da ferrugem cria micro-organismos que não mais lhe cabem e lhe quebram galhos feito melhores amigos. Não se engane. Planeje-se e plane. Sim, você sabe bem quais são as marés de cheia, então reme rumo a elas. Elos se rompem na imensidão. O mundo não requer provas da sua bondade – bomba de efeito ‘cristão’ ou maestria através de propriedade verborreica, basta saber o quanto é bom para si mesmo e o quanto é capaz de perdoar sua própria fantasia. Desmascare sem demagogia, embora do que hoje se ri, quem diria, ontem jamais conseguiria. Siga seu fluxo. Luxo é caminhada, não caminho. Abandonar todos os adornos como forma de jornada. À palha, fogo alteia. À saia plissada, o desejo escamoteia pelas pernas roliças da moça. Não seja mosca morta, abra todas as portas como se fossem asas. Os seres de baixo reconhecerão sua austeridade portentosa e respeitarão a entrada feito cérberos obedientes.

PAOLA

INTERPLANETÁRIA

Arrumei o rumo, mas esqueci de fazer a mala. Basta-me de bagagens e de recurvar-me ante o peso desse fundo. Anciã de espírito, mulher em Vênus alinhada, meu corpo já contém tantos sais e litros d’água, que acabaria com a fome de quase todo o mundo. Amores que não se contêm e, quando se veem empossados de um que não profundo, mais se alastram pelos veios, doadores universais. Rio em cheia súbita. No estardalhaço entre peixes, transfigurei-me em sereia, mas antes que esta metade-homem me devorasse, fiz da minha cauda, aos rasgos, um vestido transparente. Persigo, agora, minha própria nudez dentro da floresta, recubro meus seios de lama, dando de mamar à mãe terra, que já anda farta de tudo, morta de sede. Leite de rosas. As raízes criadas me dragam até o Japão. Um homem de olhos puxados me puxa pelos cabelos, enquanto Dalila espreita de seu voyeurismo ancestral sem Sansão. Fomos medir forças e no que deu? O Sol em conluio com a Lua gemeu, deixando Saturno enciumado. Divorciado de seus anéis, esperou o próximo retorno à beira da estrada.