AO RELENTO

Batidinhas à janela.

Esta madrugada, tomei o amontoado de gotículas no vidro por ilustre convidado. Quis contemplar para além do embaço da moldura e me abri com ela aos respingos, num sorriso confortável.

922de2866dd30ecad90240b60f1f3f3fAo longe, na rua, uma mulher-fantasma andava de um lado a outro, com um lençol branco sobre a cabeça, acordada para cogitar dentro de seu susto onde voltaria a dormir, fugindo ao sujo do charco. Sentou-se logo sob um telhado mais avantajado, a esperar pelo calor de volta. Afinal, dos males, o menos danoso. Sua vivência urbana em Fortaleza-cela revelava que, apesar dos desacertos meteorológicos, este sereno não demoraria nada. Dá um vento, leva. Secará num sopro a cama sobre o cimento.

Enquanto isso, meu colchão permanece aquecido, um pouco do suor aliviado, mas um ledo engano vaza à mente desse coração: por que não somos todos merecedores de um quentinho ou de um frio certo, à medida de nossas necessidades? Contrastes existenciais conclusivos: o pior da chuva é desabrigo; o melhor, aconchego. Na natureza, coisas são feito nuvem, inclusive este sentimento nublado. Belo dia, passarão…