VIÉS

Teu olhar me come
E num instante insone te percebo
Cedo ou tarde
Quando vens me arder em sonho
E me interponho em mão covarde
Porque estremeço
Então vejo teu lábio cortado pelo frio
E me enfio nas cobertas das lembranças
Ali te aqueço
Quanto mais quero esquecer

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ACLIMATAÇÃO

Vou rosnar para aquele furo alto e aceso lá no pretume do céu, espumando neves de rubor. Quem sabe ele não rasga a noite mais cedo e então eu possa me queimar só com o vento. Uivo de abrir cortinas, de arrepiar os que dormem, com as pontas dos medos. Todos duros. A rigidez é cadavérica para quem vive sem perigos nesse mundo. Escalarei paredes pondo os pés sobre as estrelas de vidro. Qualquer tropeço, cacos em lágrima. Rasgo o equilíbrio entre pentagramas verdes. Escorrego na chuva quando precipito. Meu precipício é a curva, não a retidão do salto. Solo arenoso para este corpo movediço. Escapo para o mais cavernoso templo, sem prece nem pressa, senão caio feito anjo à presa do inimigo. Não há vela. Portanto, sem sombras acesas nas paredes. Enxergo pelos ouvidos que irá demorar o amanhecer. Acordo mais ainda. Faço acordo com uma vontade infinda de alcançar o que se afasta de mim. Passo a nadar no impulso, já que os pulsos me cerraram às correntes. Ferrugem e tétano. Tento ter pernas ainda, mas para quê as quero? Desejo o logo, sem a lógica da espera mil horas. Carrego os ponteiros no calcanhar, poeira na sola, ampulheta solar. Escoa o tempo junto ao orvalho, baixam-se as nuvens reveladoras de horizonte. Eis que um mar escuro se afasta, as ondas abrem caminho sem correnteza, com a certeza volúvel da água. Agora meus olhos estão cheios dela. Vou parir. Vou parar de ir sem volta. A menina vai ao chão no nascer, desce das costelas da mãe até a última sorte, quando de novo cai: enfim, para outra morte eternecida. Ela então se chamaria Aurora.

MUDANÇA

Não, não intento mudar o mundo. O fundo do meu abismo é mais largo. A ele me lanço e, com ele, trago o melhor que posso, do fosso a um rio, poço profundo para mergulhar, nadar e emergir. Ontem, chamaram-me de gorda e pensei sobre a beleza própria das baleias. Sendo assim, prefiro afundar esse barco com remendos, esguichando águas insólitas sobre as lentes de um Sebastião Salgado. Seu olhar frio parece caudaloso, mas constatações sobre qualquer inexatidão não lhe faz mais perfeito que o mar. Tudo parecerá revolto se assim você está. Em que lugar você se respeita na hierarquia? O que sua franquia de tarifas mal-pagas diria se fosse acabar? E se seu mundo de rodas gigantes parasse no giro? Vomite o céu, atire na terra, respire o ar e voe sobre a pipa do ego crasso, tal cego que mal sabe distinguir as cores, as flores para os sem-narinas, tal prego que não sabe sustentar os Cristos a que mesmo se opõe. Muito se sabe sobre uma coisa em que pouco se acredita. Sinto muito sobre a sua inteligência.

PAOLA

BOA VIAGEM

Lançarei um tapete mágico sob teus pés, querido Aladim. Antes estes fossem alados, pois caminharíamos a passos largos de Ícaro. Mas não decaia como ele, por favor, sem alarido! O perigo pode se infiltrar entre os ácaros e ainda não criamos olhos bastantes para isso. Amanse o veludo tal um cavalo amigo, velho e bravo. Espero não provocar-te espirros, acaso flanem perlimpimpins até tuas narinas, que poderão torcer de um lado a outro, como as daquela Feiticeira da televisão. Ninguém mexe as fuças como antigamente… Cuidado. Aviso-te de antemão: evite voar rasteiro pelos ninhos de cobra à solta, pois estas tendem a cobrar caro o estacionamento das horas. Eleva-te mais à altura que percas de vista uma desventura qualquer. Leva tua mulher para passear entre as enseadas do melhor caminho e prospera com ela. Ouro será teu combustível inefável. Até!

EUNÍRICO

olhoEu sou o assombro às avessas, o escombro sem pedras, o murmúrio do rio que corre por debaixo das minhas descobertas. Eu sou o lírio manchado de branco, o acalanto funkeado das três horas da manhã com os bêbados em seus carros, acidentalmente mórbidos. Eu sou a semente do limão presa aos dentes do macaco, não tenho asco do medo, não tenho azedo nos espasmos. Sou livre de toda raça, de toda falta de cor. Sou a piração de Nero, a pilha alcalina dos crânios que não cessam à noite. Eu sou o dia na praia enfeitado por cocos abandonados em casca. Verde e dura. Esmeralda. Não tenho pudor das minhas vestes, mas estou nua nesta dança do ventre com um pênis amarrado à minha testa. Vou assobiar um cio, bicar um grito, cochilar um ronco na chuva. Vou caminhar sobre nuvens feito o piolho nas barbas de deus.

Eu sou Jesus Cristo Conegundes Vieira. Analfabeto de pai e mãe. Eu sou artista de rua mal-amado no Brasil, bem acolhido em Londres. Eu sou de Flandres. Comi aroeira e arrotei juá. Não sei fazenda nada. Sob o luar, corrijo correntezas, acorrentando mares. Eu sou baluarte popular, solto pipa do telhado quando me dá na telha. Quebro ouvidos com passos, por cima, vejo estrelas. Encabulo cometas quando sei trovejar. Minha boca é um trompete, os olhos tímidos, os cílios cínicos a escovar ventania. Vou te falar. Eu estava comendo pipoca quando um dia me veio um estalo. Pensei. Por que não pular? Então, saltei de salto quinze da beira da panela e caí no gogó do sapo. Virei ebó de príncipe. Mastiguei, mastiguei e nada de casamento. Fiquei para titia. Agora, eu me pergunto: que diabos vim fazer aqui na fila de grávidos? Engordei com a cinta até a papada. Contratei cirurgiões cubanos, amiguei com um e tive três tiçõezinhos. Tinham dentes mais alvos que os de alho, a morder o mamilo de um só peito. O outro entupiu sem leite. Queriam morder o assoalho feito cães. Anos depois, eu me vi latindo, mais afável que os humanos.

Havia transcendido às priscas eras do paleolítico. Rangava salada de plâncton. Virei vegetariano, mudei de sexo pela segunda vez, implantei microasas de colibris e me libertei do convívio com demasiados. Estou na medida. Ultrapassei os mil metros na maratona dos suplícios. Meu vício hoje é fumar maços cheios de ectoplasma. O fenômeno das mesas girantes acrescentei às atrações do trem fantasma. Fumacê de gelo seco. Eu sou um circo. Eu sou forragem, pasto e milho. Eu sou a ferrugem no trilho do trem. Eu sou um trailer antes habitado por Alex Supertramp. Mesmo fiasco, eu não me desisto. Back on the chain gang.

IMATERIAL

Embora sabendo da existência daquela seção de Achados e Perdidos, fez questão de levar tudo a perder, porque tudo já estava meio que perdido mesmo. A esmo… Esquecer poderia aquecer a alma com algum equilíbrio: ebulição de vida. Foi embora e desapegou para sempre do que supôs tão memorável quanto uma estátua de bronze no meio de uma praça, deixou dentro de um cofre guardado por alguma boa alma ou algum gênio da lâmpada o seu arsenal de vícios e vicissitudes. Agora se sentia mais viva, sangue novo em transfusão, o punho livre. Do abandono consentido, encontrou-se ao final. E pelo extravio de olhares, alhures, ninguém mais fora encontrado por ela.