VIÉS

Teu olhar me come
E num instante insone te percebo
Cedo ou tarde
Quando vens me arder em sonho
E me interponho em mão covarde
Porque estremeço
Então vejo teu lábio cortado pelo frio
E me enfio nas cobertas das lembranças
Ali te aqueço
Quanto mais quero esquecer

Anúncios

DESJEJUM

Os pães têm mais miolos que essa gente faminta
De mentir em seco o que se quer em finos grãos
As mãos postas à mesa denunciam alguma fé
Em si, amanheceria com todas as cascas
Refletiria o pretume da alma dentro do café
Pingaria amargo leite nos olhos fixos
Espantaria moscas sem usar as facas

O silêncio das horas parece prolixo
Mergulha seus ares na manteiga
Derrete-se Dali
Salvador de meia tigela
Do que já foi azeite em tela
A pintar o que sorri

Um hálito só pela manhã
De dois monges que se beijam
Falando sem medo sobre sol e romã
Segredos farfalhando à brisa
Doces lábios de amor ensejam
A flor no talo que o calor eterniza

INEBRIANTE

Teu perfume perfura todos os instantes
Atravessa o lume bruxuleante dos castiçais
Arranca pólen, lençóis e torrentes
Não sais de banho em corrente nem com aguarrás!

Impresso à carne, ao cerne da minha questão
Elabora vertigens com o dedo apontado à lua
És criador e criatura em tua prestidigitação
Desfaz o medo através do amor maior

Teleguio-me pela ação do teu olor, meu favorito
Ornado em cor de sensações primaveris
Sobrepostas em estantes: frascos estonteantes
Feito rito de passagem, sigamos sem gris ou nós

Só seremos livres entre os sóis pintados nas telas
A sós com o quente da alma e o bem ao nosso redor
Havendo entressafra de jasmins, produziremos velas
Da aromática dos amantes, os querubins sabem de cor