AUSCULTA ATIVA

Estude o próprio silêncio. Arcar com os contrastes de tantas vozes internas e ruídos vindos de fora pode parecer malabarismo do que já deixou de caber entre apenas dois braços. Todo perfeccnionismo deveria servir para notar e anotar o que mais enriquece, rabiscando da lista de presenças qualquer pista de desassossego por encargo ou descargo de consciência.

Um exercício de atenção plena ajuda a auscultar sem tropeçar nas palavras do outro, resguardando língua dentro da boca, em poda minuciosa dos balões de pensamento. Cada qual respira conforme a própria natureza, portanto aprenda a aguardar sua hora de falar mais relevâncias curtas que emitir sentenças fartas de certeza. Nem toda gente necessita de opinião constante ou da sua concepção de inconformidade, por exemplo. Pitacos não são petiscos para iniciar boa conversa, especialmente com a cabeça em desprezo claro às afinidades.

Ego cheio geralmente rende só papo furado. Pressa de dizer também se traduz na falta de educação, até quando se concorda. É como uma baforada de cigarro na cara do não-fumante, ou um sorriso forçado ao se querer bem aceito, faltando-se a si mesmo ao lado. Ninguém é obrigado a nada. Diálogo compreende presença sentida, um toma-lá-dá-cá preenchido por equilíbrio paciente e, embora surta efeito terapêutico, não é sempre sessão de análise, não pede aconselhamento, julgamento, nem passagem.

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REPOUSO

Quando silenciamos, ouvimos os silvos benfazejos das respostas. Mantras impressos nos sulcos da realidade. Tudo à mão, bonança e gratidão dentro de nós. A sós com o todo que há, grandes e pequenos sob a ótica do reconhecimento. Momento de presença na crença de nada, só confiança. Para cada perspectiva, um prisma vasto. De cima ou de baixo, vê-se a amplitude que permeia nosso ser. Estamos, do nódulo da árvore à casca de noz, nas cercanias da eternidade. Asas gordas de ventania pesam levezas em rastro, criança pequena ensina sóis de aurorescer, banho de pé no mar, cantar dentro da gruta, ecoar o olhar do outro dentro do peito, fazer leito no precipício da liberdade, acolher a saudade como forte indício de que vivemos outras eras, mesmo que há poucos instantes. Ressonantes de harmonia, abraçados pelo Amor ao cosmos. Micros e macros que somos, formiguinhas pousadas em gotas que ampliam até estourar tamanho. Do que somos feitos? Espíritos elásticos. Caberíamos dentro de um sonho.