ACLIMATAÇÃO

Vou rosnar para aquele furo alto e aceso lá no pretume do céu, espumando neves de rubor. Quem sabe ele não rasga a noite mais cedo e então eu possa me queimar só com o vento. Uivo de abrir cortinas, de arrepiar os que dormem, com as pontas dos medos. Todos duros. A rigidez é cadavérica para quem vive sem perigos nesse mundo. Escalarei paredes pondo os pés sobre as estrelas de vidro. Qualquer tropeço, cacos em lágrima. Rasgo o equilíbrio entre pentagramas verdes. Escorrego na chuva quando precipito. Meu precipício é a curva, não a retidão do salto. Solo arenoso para este corpo movediço. Escapo para o mais cavernoso templo, sem prece nem pressa, senão caio feito anjo à presa do inimigo. Não há vela. Portanto, sem sombras acesas nas paredes. Enxergo pelos ouvidos que irá demorar o amanhecer. Acordo mais ainda. Faço acordo com uma vontade infinda de alcançar o que se afasta de mim. Passo a nadar no impulso, já que os pulsos me cerraram às correntes. Ferrugem e tétano. Tento ter pernas ainda, mas para quê as quero? Desejo o logo, sem a lógica da espera mil horas. Carrego os ponteiros no calcanhar, poeira na sola, ampulheta solar. Escoa o tempo junto ao orvalho, baixam-se as nuvens reveladoras de horizonte. Eis que um mar escuro se afasta, as ondas abrem caminho sem correnteza, com a certeza volúvel da água. Agora meus olhos estão cheios dela. Vou parir. Vou parar de ir sem volta. A menina vai ao chão no nascer, desce das costelas da mãe até a última sorte, quando de novo cai: enfim, para outra morte eternecida. Ela então se chamaria Aurora.

O TROCO

Pare de dar o que você não tem (vintém, alguém, saudade). Respeite o limite sem esperar gratidão ou reconhecimento neste plano ou realidade. Quando a gente esquece o imediato, em ato constante, surge o Amor gratuito. Quem se venderia a apreço tão baixo? Isso não significa também que se deva poupar esforços para tudo na vida, mas aplique a energia movente nas coisas certas. Corrente quebrada na praia não navega para longe, ancora qualquer espinha ereta. Deixe de se escorar nas impossibilidades. O acúmulo da ferrugem cria micro-organismos que não mais lhe cabem e lhe quebram galhos feito melhores amigos. Não se engane. Planeje-se e plane. Sim, você sabe bem quais são as marés de cheia, então reme rumo a elas. Elos se rompem na imensidão. O mundo não requer provas da sua bondade – bomba de efeito ‘cristão’ ou maestria através de propriedade verborreica, basta saber o quanto é bom para si mesmo e o quanto é capaz de perdoar sua própria fantasia. Desmascare sem demagogia, embora do que hoje se ri, quem diria, ontem jamais conseguiria. Siga seu fluxo. Luxo é caminhada, não caminho. Abandonar todos os adornos como forma de jornada. À palha, fogo alteia. À saia plissada, o desejo escamoteia pelas pernas roliças da moça. Não seja mosca morta, abra todas as portas como se fossem asas. Os seres de baixo reconhecerão sua austeridade portentosa e respeitarão a entrada feito cérberos obedientes.

PAOLA

ARQUITETURA

Quebrar a munheca no murro
Urrar contra a parede
E perceber que se pode muito mais atravessando sonhos
Que blocos de pedra
Cabeça dura, burra de tanto intelecto
Cenho instrospecto dentro do lago
Onde magos e narcisos derretem suas poções
Porções de máscaras
Debulhadas em lágrimas de ouro
Que não valem o tesouro das mágoas

Renovar nas águas é serenar a fronte
Fonte de outras nascentes
E assim ver crescer a raça destemida
Bebendo do caldo do caos para se reconstruir um tanto
Cessar o martelo do passado nada santo
No passo atrasado que espreita distraído
Enquanto tropeça nos próprios escombros
Ganges, Escamandro, Nilo
Ser sibilo dos novos tempos
Todos os elementos edificantes

PAOLA

VAGAR

Vou sair para dormir ao relento, fazer rebento com a rua, interagir com o silêncio equidistante dos automóveis, como se o vácuo fosse imóvel repleto de mobília. Na trilha desse mim-mesmo infinito, dá-me um faniquito escondido dentro das calças. Alcancei o topo da taça de Mercúrio feito cobra de duas cabeças, brindei com vinho, arrebentei o sutiã de tanto naufragar às pedras que me arremessaram aos montes de Vênus em brasa. Vulcânica e vulgar. Meu nariz aquilino fareja a asa menos próxima a embarcar nesse voo dos rasantes, que rasga unha por ciscar montanhas se arreganhando fácil pelo asfalto. Meu salto alto envelheceu de tanto andar, seduziu um condor que conduzia o andor do santo de barro. Derrubou todo o pecado aos pedaços e me pus a requebrar, como as ondas, dançando os quartos, cigana insana à beira-mar. Desdém? Os olhos desse instante usam saia vermelha entre quatro paredes, rodopiam vertigens sem cessar coragem. Aquém, logo se vê aquela chama – bravia do pavio, xamânica – que ninguém mais há de apagar.