VIÉS

Teu olhar me come
E num instante insone te percebo
Cedo ou tarde
Quando vens me arder em sonho
E me interponho em mão covarde
Porque estremeço
Então vejo teu lábio cortado pelo frio
E me enfio nas cobertas das lembranças
Ali te aqueço
Quanto mais quero esquecer

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VAGAR

Vou sair para dormir ao relento, fazer rebento com a rua, interagir com o silêncio equidistante dos automóveis, como se o vácuo fosse imóvel repleto de mobília. Na trilha desse mim-mesmo infinito, dá-me um faniquito escondido dentro das calças. Alcancei o topo da taça de Mercúrio feito cobra de duas cabeças, brindei com vinho, arrebentei o sutiã de tanto naufragar às pedras que me arremessaram aos montes de Vênus em brasa. Vulcânica e vulgar. Meu nariz aquilino fareja a asa menos próxima a embarcar nesse voo dos rasantes, que rasga unha por ciscar montanhas se arreganhando fácil pelo asfalto. Meu salto alto envelheceu de tanto andar, seduziu um condor que conduzia o andor do santo de barro. Derrubou todo o pecado aos pedaços e me pus a requebrar, como as ondas, dançando os quartos, cigana insana à beira-mar. Desdém? Os olhos desse instante usam saia vermelha entre quatro paredes, rodopiam vertigens sem cessar coragem. Aquém, logo se vê aquela chama – bravia do pavio, xamânica – que ninguém mais há de apagar.

INVESTIDA

galinhaRisca de giz o meu brim
Rasga meu jeans
Mete o cetim dentro da calça
Arranca minha alça no dente
Sente o nosso tecido nervoso?
Levanta esse vestido até o umbigo
Vê minha calcinha de renda
Renda-se a cada fio de meia ¾
Vamos para o quarto de despir
Quero sentir seu aveludado
Novelo de lã em pelo na anágua
O fecho-ecler não quer abrir
Desafivelemos com calma
Meu modelo, já o quero nu
Estou sem sutiã
Olha quanto eu suo!
Nós nos amamos sobre a trouxa de roupas
Sujas estampas que logo poremos a lavar
No varal, uma cueca branca entre as rotas
Denuncia por onde tentei lhe desabotoar
Meu batom também manchou o colarinho
E enquanto as nossas peças não enxugam
Na máquina a centrifugar peço outro carinho
Em cada poro sem ar que seus beijos me sugam.

ÓSCULO NO ECURO

Ainda estou traumatizada com o golpista
Quis me matar sufocada com aquele beijo
Enfiou sacola na cabeça sem deixar pista
Como ratoeira aguarda mordida no queijo

Faltou muita saliva à minha baba no dente
Afinal a boca tem de ser bem chupada
Percebi que eu esfomeava de repente
Quando era para me sentir incomodada

Mecanismos de ação bactericida
Não nos deixam imunes à nada
Se bem que há boca contorcida
Que parece até lamber calçada

Senti a língua se mexer com certa raiva
O suor foi me prendendo todo o fôlego
Roubo de hálito dá cárie? Não que eu saiba
Mas senti: barbárie de amor é um fenômeno!