PROVA DE AMIZADE

A poesia é minha melhor amiga. Cúmplice de olhares, repagina meu tédio, lê dentro da alma a cura que existe e a áurea de me ser santo remédio. Quem sumiu de mim, continua fazendo parte, mesmo que à distância, à base de luto ou de briga, perdão ou despedida. Partiu-se, porque somos juntos nós desatados. Traiu, porque não soube repartir o pão dos casados. Descuidou, por nunca precisarmos ser lactantes. Os diletantes, quase sempre, tornam-se vampiros de nossas melhores energias. Orgias do imperceptível. Não sabem viver sem o colostro, muito menos sem o colapso. Por isso, um lápis me basta à ponta dos dedos que não aponto. O ponto final é o maior segredo. Um ápice. A escrita nos permite continuar na próxima pauta invisível. Quando nos pomos tristes, chora a linha conosco, ouvinte de nossos clamores e desacatos. Pudores não existem, mas gozos extraordinários. O silêncio cabe na foto de um casal que toma sorvete no shopping, gélido um para o outro, na ânsia por uma audição remake de um filme dos anos 80.

No papel em branco encontro mais entusiasmo que as falas tagarelas de bonitinhos sem-sal. Abro as janelas palatáveis à herança ancestral de ainda conseguir alcançar estrelas mornas. O brilho sempre há de convir que o que virá não mais importa. Fecho a porta e escrevo o risível dentro de meu próprio vácuo. Ar comprimido pelo diafragma que milimetrifica a meditação. Atenção a quem, em vão, para quê? Os que necessitam ser reavivados pela história fazem parte de uma minoria que vence a cada dia em manchete escolhida desses jornais. Sensacionais são os vulcões dando sua lava à vista e as paisagens que se modificam em consonância ao comportamento do homem frívolo. Ser poeta, hoje em dia, está com as horas contadas, a música perdida. A grande diferença é que ele, mesmo incomodado, prossegue vivendo muito mais que os outros. Como saber? Nesse jogo de dados, só se vê a própria sorte escrevendo. Imortal enquanto fure a dor nos olhos.

PAOLA

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