ERA

Não há mal que o tempo faça senão por tua conivência. O entusiasmo, a mentira, a glória ou a violência, tudo passa. Memória é para se guardar em vidro que racha com o vento, mas dá alento enquanto dali, bem preso, não vaza. Pode demorar um ano, dez, cinquenta qualquer cicatriz, por muito que entrave quem a diz ser tão profunda. Há cura a quem não se amargue dessa vida. Há colheres de chá e de açúcar, conversas e silêncios em pitadas. Cedo ou tarde, o alarme acordará quem se arme por desespero. Na espera de tudo se acabar, acabam-se de medo.

Enquanto não vem o esquecimento, procura lembrar…

O sol é uma ficha telefônica para os que se perderam em pores-de-sol de antigamente. Completar a ligação é unir os pontos e perceber o luar do outro lado da linha. Nas entrelinhas, percebem-se as estrelas que ainda pairam no céu: o teu será o mesmo que vejo? O futuro está nos olhos da cigana, que, pela gana por dinheiro, esqueceu de ler a própria mão. Quais são os teus pesadelos? Sonhos são mais hábeis. Abrem-se mil destinos. Escolhe a eternidade, que na tua idade ainda é coisa de menino.

PAOLA

AGOSTO

Mês dos ventos, traga-nos o que o calor levou. Saia de Marilyn Monroe e entre pela janela. Liberdade para não temer o que virá, porque logo saberemos dela. Debaixo para cima, de cabeça para um facho. Dê luz! Banhe rostos com essa fresca lambida dos Deuses nus. Arraste o pó da estagnação e lance o pólen às fertilezas. Assim, brotaremos limpos em alma como após uma lavagem à palo seco. Seremos velhos, porém enxutos, sem essa roupa suja que se lava em casa e não a esmo, sem atingir os olhos atentos dos desamados, nem tingir os rios com sangue derramado como se fosse leite.