ARQUITETURA

Quebrar a munheca no murro
Urrar contra a parede
E perceber que se pode muito mais atravessando sonhos
Que blocos de pedra
Cabeça dura, burra de tanto intelecto
Cenho instrospecto dentro do lago
Onde magos e narcisos derretem suas poções
Porções de máscaras
Debulhadas em lágrimas de ouro
Que não valem o tesouro das mágoas

Renovar nas águas é serenar a fronte
Fonte de outras nascentes
E assim ver crescer a raça destemida
Bebendo do caldo do caos para se reconstruir um tanto
Cessar o martelo do passado nada santo
No passo atrasado que espreita distraído
Enquanto tropeça nos próprios escombros
Ganges, Escamandro, Nilo
Ser sibilo dos novos tempos
Todos os elementos edificantes

PAOLA

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REPOUSO

Quando silenciamos, ouvimos os silvos benfazejos das respostas. Mantras impressos nos sulcos da realidade. Tudo à mão, bonança e gratidão dentro de nós. A sós com o todo que há, grandes e pequenos sob a ótica do reconhecimento. Momento de presença na crença de nada, só confiança. Para cada perspectiva, um prisma vasto. De cima ou de baixo, vê-se a amplitude que permeia nosso ser. Estamos, do nódulo da árvore à casca de noz, nas cercanias da eternidade. Asas gordas de ventania pesam levezas em rastro, criança pequena ensina sóis de aurorescer, banho de pé no mar, cantar dentro da gruta, ecoar o olhar do outro dentro do peito, fazer leito no precipício da liberdade, acolher a saudade como forte indício de que vivemos outras eras, mesmo que há poucos instantes. Ressonantes de harmonia, abraçados pelo Amor ao cosmos. Micros e macros que somos, formiguinhas pousadas em gotas que ampliam até estourar tamanho. Do que somos feitos? Espíritos elásticos. Caberíamos dentro de um sonho.

ANAMNESE

669bb669bc1754dd1a2de1b891959f10Esqueço o que não mais me aquece a alma. Frieza de espírito meu período na Terra condena. Descarto sinapses que não agregam às boas lembranças neurocordiais. A melhor propulsão sanguínea ocorre quando estamos de mãos dadas ou a olhos vistos, cara a cara, palavra a palavra, em leitura labial, no disparo de feromônios à pele que conduz nossa memória olfativa feito desenho animado: uma fumacinha que embrenha-se às narinas e faz levitar o corpo em direção ao amor ou à comida. Raro perfume. Mas arrotaram a rota pelo destino delgado, desviaram o pensamento ao que menos importa. Arrogante fragrância.

Afetivamente, ainda sei de cor aqueles tempos de criança em que a única esperança se detinha na presença desse momento-instante. Chora-se segundos após a topada, ri-se imediatamente depois, com ingênua alegria. Genuína sensação. Gratitude pelo curativo colorido no dedinho ou nos joelhos ralados, que logo descascam e, às vezes, deixam cicatrizes à mostra. O neurônio é gênio quando o perdão vem rápido e sara logo os nossos dilemas adultos. Larápio é o relógio que vê passar tantos filmes sem que se possa voltar atrás do ‘rewind‘ tantos problemas, embora haja sempre começos a serem medidos e remediados sem a urgência frívola dessa ansiedade. Corpo fugaz. Perdemos tudo e, mesmo assim, somos capazes da recordação. Cartas e fotografias. Sorte da gente que insiste em sentir saudades.

VAGAR

Vou sair para dormir ao relento, fazer rebento com a rua, interagir com o silêncio equidistante dos automóveis, como se o vácuo fosse imóvel repleto de mobília. Na trilha desse mim-mesmo infinito, dá-me um faniquito escondido dentro das calças. Alcancei o topo da taça de Mercúrio feito cobra de duas cabeças, brindei com vinho, arrebentei o sutiã de tanto naufragar às pedras que me arremessaram aos montes de Vênus em brasa. Vulcânica e vulgar. Meu nariz aquilino fareja a asa menos próxima a embarcar nesse voo dos rasantes, que rasga unha por ciscar montanhas se arreganhando fácil pelo asfalto. Meu salto alto envelheceu de tanto andar, seduziu um condor que conduzia o andor do santo de barro. Derrubou todo o pecado aos pedaços e me pus a requebrar, como as ondas, dançando os quartos, cigana insana à beira-mar. Desdém? Os olhos desse instante usam saia vermelha entre quatro paredes, rodopiam vertigens sem cessar coragem. Aquém, logo se vê aquela chama – bravia do pavio, xamânica – que ninguém mais há de apagar.

INTERPLANETÁRIA

Arrumei o rumo, mas esqueci de fazer a mala. Basta-me de bagagens e de recurvar-me ante o peso desse fundo. Anciã de espírito, mulher em Vênus alinhada, meu corpo já contém tantos sais e litros d’água, que acabaria com a fome de quase todo o mundo. Amores que não se contêm e, quando se veem empossados de um que não profundo, mais se alastram pelos veios, doadores universais. Rio em cheia súbita. No estardalhaço entre peixes, transfigurei-me em sereia, mas antes que esta metade-homem me devorasse, fiz da minha cauda, aos rasgos, um vestido transparente. Persigo, agora, minha própria nudez dentro da floresta, recubro meus seios de lama, dando de mamar à mãe terra, que já anda farta de tudo, morta de sede. Leite de rosas. As raízes criadas me dragam até o Japão. Um homem de olhos puxados me puxa pelos cabelos, enquanto Dalila espreita de seu voyeurismo ancestral sem Sansão. Fomos medir forças e no que deu? O Sol em conluio com a Lua gemeu, deixando Saturno enciumado. Divorciado de seus anéis, esperou o próximo retorno à beira da estrada.

SARTRE DO ABISMO

Quem sabe, o sábio acabe aqui sem ter razão nenhuma. Intelecto em demasia tem a mesma funcionalidade de uma unha encravada. Quando o pensamento é mal condicionado, o passo anda, mas dói no piso feito siso inflamado. Pé no chão é requerido, sem se preterir o caminho do coração. Ninguém quer a facilidade mais árdua que existe, simplesmente por insistir em reivindicar o amor que não tem. Ação! Doa a quem doar, no ardor de nada saber. Como você está? Quem realmente perguntou por esses dias o que sente com audição curiosa, sem intenção de polidez, só para testar canal distanciado? Com tato, a comunicação dos sentidos se dá quando sentimos muito. Mas o que o silêncio parece esconder, que tanto mais se revela? Vela acesa em escuro quarto: um trevo encontrado na treva, à mercê de sua busca. Quem não procura, sempre acha. Quando se pensa em ter a porta trancafiada às sete chaves de vida, outras percepções se abrem, a flor de lótus é arrombada ao cairmos de joelhos e pontapés na lama. Do plantio no pútrido à colheita do néctar. Não é assim que acontece? Estamos preparados. Rumo certo. Amorteça o que o amor tecer, agora sinta. Ser o assassino do algoz e não a vítima do ego, trucidando a sina de morrer, já que estamos condenados a ser livres.

ASCETISMO

Há quem se queira demasiado sacro, arrotando às altitudes sua compostura, depois de comer, com talheres de prata benzida, o bacalhau apodrecido da Era de Peixes. Deixam rastros de salvação para os outros como se todas as pegadas fossem as mesmas, então, sem saber onde pisam, deparam-se com abismos. Nem o Cristo calçou os sapatos do inimigo, seu pé era grande demais, assim como sua fé, descalçada de qualquer falsa imagem ao lavar as feridas dos queixosos. Lave suas mãos após o apedrejamento. Lave sua boca depois de blasfemar contra os ateus. Deus, se há, deve habitar a nossa telha. Centelha divina: EUreka! Teto de vidro. Vitral importância.

A Arte é o nosso real confessionário. O Livro é um missionário de linhas tortas. Quem conseguir ler sem fundamentalismos, compreenderá o tracejar da vida, que não se intimida ao primeiro olhar. O traquejo do profano nos liberta. É tão fácil julgarem a dança do feliz quando não dão um passo à frente, rentes com sua desfaçatez no sorriso. Os santos condenam o que está a um palmo de seu nariz, porque são carentes do todo, de unicidade. São crentes de um invisível que já se pôs morto. Perdoar a quem doer, em automartírio culpabilizador, é dar o braço a torcer: contra. Todos os seres têm de ser ditosos, mesmo que se queiram malditos.

Sim, vim aqui demonizar a demagogia também dos que se querem muito profanos e, na hora do vamos ver, não são os garanhões que se pretendem fazer crer. Um falo sozinho não canta, meu bem. Vivemos anos em que, quando não 8, 80. Temperança, tem? Essa história de evolução humana não convence mais. Os animais estão bem além de nós no quesito existência em elevação. Sabem viver em harmonia entre sua espécie, lidam com sua sexualidade sem qualquer repressão e cultuam gurus sem nomes em sânscrito ou latim, são a própria imagem e semelhança de uma criança, preservam e respeitam sua Natureza. Aqui, a reza é outra. Aqui, o bicho é guardião e não tem esse seu anão de jardim. Alta envergadura de quem só come verdura e não se gaba. Garbo e elegância não requer protuberância peniana ou prótese mamária.

RUBORES

Rapazes tímidos têm também o seu encanto. Cantam calados com os olhos céleres, traçando metas platônicas como quem desalinha cabelos num sopro imaginário, desembrulhando decotes com suas intenções adolescentes. Eles sacam tudo em seu mundo paralelo, enquanto o amarelo das horas se desbota, desapontando as moças que os esperam. Admiram as mais afoitas, que os golpeiam com uma chave de pernas, embora seja sempre um mistério se elas são capazes de abrir um coração. A verdade é que esses meninos cheios de recato, quando se apaixonam, podem transformar seu gesto retesado em ação. Vão à caça do que amam armados de extroversão. Então, extravasam seus delírios, deliberadamente, em gozo, aprendem a compor canção e rabiscam cadernos com poemas rasgados.