ASTROLOGISMO

Fomos eclipsados pela imensidão
Então, eis que nosso Sol reaparece
A prece é para nós mesmos
Que fazemos o uno com versos múltiplos
Entoando cânticos à Lua
Nua entrega de ser o amanhecer da noite
Como um açoite de estrelas
Uivos de coiote excitado
Pela cheia farta
Não aparta o lance
Lança os dados pela escada
Gravitamos
Respiramos outros mundos
Inflados outrora
As crateras deglutem novas esferas
Enquanto somos sugados pela Via Láctea
Leite em pó de galáxia
A nutrir nenéns paridos

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GÊNERO: LÍRICO

Hoje é o dia dela, mais um aniversário da senhora secular ou da dama trajada de novelo: Poesia. Ela que nos aquece a alma em pelo de tanto baforar a vida dentro do espelho. Mesmo sendo eterna, ainda há motivo para comemorar. Ainda mais agora, em que o caos assola a matéria, é preciso mexer o caldeirão do óbvio e sublimar. Onde se vê fumaça, deve haver uma fogueira. Se existem bruxas, que não regressemos à idade dos ateadores de brasa aos livros. Assemos nossos temores e sintamos odores de ervas. Vamos limpar! Só a Arte é capaz de transmutar em cor o bolor verde-acinzentado da esperança. Menina de trança a rodar. Tonteia, mas não cai. É um Haicai do sentir na profusão do silêncio, uma ode chinesa, na proeza de dizer com os pés miúdos em seus passos o que ninguém saberia falar. Até o ser mais obtuso, vez ou outra, transita pela poeira dos dias sem ver deserto.

Hoje, achei estar quase tudo perdido, quando um gato me olhou fundo nos olhos na saída do cinema. Pedi uma tapioca bem recheada, então pude alimentá-lo e entender que a fome pode ser maior que a birra ou a rima pobre. Qualquer ira passa com um Hipi-Hipi-Urra! Nada como o dia seguinte, que esmurra pior e a gente nem sente, porque se está mais preparado. Nada como um pedinte para jogar na sua cara tudo o que você tem e o vintém que você se presta a dar cai justo no momento em que ele quer encher a cara para esquecer. Que cara virar? Que faces ter? A moeda é uma razão para a sobrevivência das fontes. Quem não acreditar em sorte, hoje em dia, está ferrado. Mas falemos de poesia, ou melhor, façamos. É como falar de um amor que se perde em aleivosias. Tem que se praticar. A melodia se afina com o sangue. Eu desejo a todos os meus amigos poetas o melhor do lirismo quando defrontarem o abismo cru. E aos que dizem não saber da lira, aconselho sentir o crispar dos trilhos em seus trens cotidianos, chorar e sorrir, suar e levitar, mesmo que disfarçadamente. A poesia bate na gente aos poucos, feito onda em quem tem medo de nadar.