INTERRUPÇÃO

Não compro cigarros. Não morro mais cedo, nem acordo também. O que abrevia a vida: pegar sereno? Nem tive vó viva que me dissesse isso. Ninguém morreu de cisco no olho, mas é um risco que se assopra, uma alma que se deixa assombrar por suas janelas. Desfaleço sobre cheiro de amaciante, sabendo que a vida não abranda quando acorda. Ainda vou morar no campo, conversar com as flores. Calhordas não permanecem ao nosso lado. O fado poderia ser em português, mas o maracatu ressoa melancólico nessa avenida de dialetos que nunca entendo. Tambores parecem africanos chorando sua dor. Adornos folclóricos. Para quem? Turbantes são tumores coloridos sobre as cabeças descobertas. Há rumores sem rumo, louvores só de ida. Ninguém entende nada sobre buracos negros, só o amor de Bob Dylan. Como pode um fanho cantar? Mede-se o esplendor pelo tamanho, adiantaria ser tacanho o sol? Jamais seria. Então, fazem música. Embora tudo se perca quando se vai calando. Silêncio exige valentia, validade, precisão. O espocar da espuma na água do mar, o ressoar naquele vácuo engrandece tanto, que sufoca a gente. Intervalo é ilusão. Roda de Sansara não para, não para, não para, não. Autofagia da cobra. Cobrança do universo. Tente ficar quieto, olhar para o teto, presidiário de seu próprio corpo. Antes estar morto que amornar a existência. A desistência é logo ali, loto fácil. Do que desisto é das multidões, desses otários crentes que são doutos. Deteriorados. No fundo, sabem que pioram com o tempo. Vinhos amargos azedam a boca da espera. Eras e eras e eras sobre ombros de meros Neandertais. Quem quer paz faz o quê? Poema. E esse eu nem acabei ainda.

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