LÍQUIDO AMNIÓTICO

Ele não sabia nadar. Era pedra, afundava. Apreciava mergulhar no lado mais profundo da piscina e lá permanecer. Bastava. Pura meditação. Sentia o corpo pulsar dentro d’água enquanto mantinha os olhos bem fechados, imaginando-se um peixe de aquário daqueles translúcidos e luminosos, de se ver o coração palpitar, de se enxergar o plâncton sendo digerido em cadeia alimentar, de se alojar no mar feito prisão e simplesmente ser. Por dentro. A respiração presa por muito tempo relaxava a cabeça, o sangue comprimido livrava-lhe do barulho lá fora, da secura das pessoas, frias, absortas, quase mortas.

Ali estava quente e protegido, a sós com seus órgãos, encapsulado por um útero artificial que logo lhe pariria de novo ao mundo real, de minuto em minuto, como a roda da serpente: ouroboros. Emergia de vez em quando para capturar o fôlego, depois retornava. Era um vai-e-vem entre silêncios e gritos de crianças que brincavam ao redor, embora respeitando o espaço do menino. Quando resolvia abrir os olhos, contava quantos outros pés lhe circundavam, como se fossem irmãos de uma mesma mãe adotiva e quadrada. Azulejos escorregadios, gotículas formadas, vibrações graves contornando seus ouvidos. O globo ardido. Parecia mais pálido que antes – constatava ao olhar para as próprias mãos. Por demoradamente submergida, sua pele enrugava. Mal havia renascido de novo e já velho se reencontrava. Fetal e edil ao mesmo tempo, mas na idade consciente de um menino.

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