CAMUFLAGEM

Um desenho de Sara Anstis – algo sobre manter-se protegido desse mundo falocêntrico -, lembrou-me o dilema do porco-espinho, do filósofo alemão Schopenhauer, quando inspirado por uma de suas escaladas aos 16 anos.

Fazia uma “quentura animalesca” no alto da montanha Schneekop, quando pastores embriagados se amontoavam em espaço exíguo – inspiração para a parábola (Hedgehog’s dilemma), presente na obra Parerga und Paralipomena.

Diz-se que, por causas invernais, porcos-espinhos se apertavam na tentativa de manterem o local aquecido. No entanto, pelo fato de acabarem se espetando todas as vezes, tinham de manter certa distância.

O conto, famoso também por ser citado pelo pai da psicanálise, versa sobre a necessidade de socializarmos, ao mesmo tempo em que, por várias circunstâncias traumáticas, devamos nos distanciar uns dos outros.

Por cautela ou respeito, amor próprio ou privacidade de direito, afastamento é necessidade humana para a manutenção de nossos machucados. Deve haver um limite para as feridas e experiências desconfortáveis que, nem sempre, nos fortalecem.

Conviver compulsoriamente, a meu ver, só produz mágoas. Especialmente em final de ano, quando o dano moral é causado pelo “bem” da família e da sociedade. Danem-se as peles de cordeiro dos lobos acobertados por um Deus falido. O inverno nos convida a um bom cobertor, amores reais e cama com livros. Danem-se vocês!

Anúncios

RESISTÊNCIA

Dei de misturar chá com café
Enquanto oleosos crentes tentam untar sua fé com água
Há copos sobre a televisão e negros corpos sob seus tapetes
Notícias a sangue frio fervilham numa espécie de batismo

Sem compactuar com marchantes, não peregrino absurdos
Meto a íngua no olho do próximo para ver se capturam o óbvio
Obituários dividem a sessão com extinção de ministérios
Nesse jornal, todos morreram sem saber, no poder ainda

Já nossos assassinados se divinificam para puxar o pé
Criam asa, apesar de destruídas as placas com seus nomes
No Brasil, as ruas são livres só para as almas penadas
Pena de sorte será a lei do bandido formado professor

Violados em direitos, artistas defecam no Palácio do Planalto
Nem se trata de outra instalação polêmica contra povo do bem
É epidêmica a diarreia quando muitos estão sem casa nem ar
Obram, resistentes, até calarem suas vísceras para sempre

O CORTADOR DE GRAMA

Todo mês, vem um homem cortar grama, sentado em seu minicarro barulhento e dotado de lâminas potentes. Talvez meu sonho de infância, se criança hoje fosse, seria pilotar um aparador desses, subindo e descendo jardins quase inacabáveis, com seus muitos relevos, nessas reviravoltas.

Gosto quando vem o cheiro do mato às narinas, tão forte de fazer espirrar. O mais engraçado é quando saímos para o trabalho pela manhã e as roupas atraem poeira ao passarmos por dentro da nuvem de capim. Logo rimos do desconforto uns dos outros, ao baterem-se da blusa às calças, como quem acabou de pegar uma estradinha de terra.

Outro fenômeno que fascina o olhar da gente é sentir o verão tostar a relva pelo calor, fazendo amarelescer esse piso instantaneamente e, quase de um dia para o outro, já com a primeira chuva, tudo voltar a ficar bem verde, como se revestido por um tapete vicejante, onde o ar puro se maneja, voltando a acalmar nossa linha de respiro.

FOTOGRAFIAS

Têm sido tantas as memórias ao longo desses anos que, de quando em vez, dá um branco nostálgico e as revisito no porão da antessala de incontáveis vidas para ver o que ainda sinto. Extrair de um instante a mesma marca de afeto parece inalcançável, mas a evocação do passado ainda nos provoca, reavivando um orgulho vaidoso do que se foi e do que ainda se é: bandas de rock, palcos, saraus, escritos, artesanias boêmias, amigos. Então, eu vejo que valeram até alguns filmes queimados. Do que não se rasga ou se perde, ainda se aproveita em choro ou riso fácil. São resgates de remendos em retalhos guardados, bolores de alguns egos em brigas já esquecidas, discursos acalorados em mesas de bar, razões desarazoadas pelo furor juvenil, paixão demasiada transpassando vários corpos, ruas sem saída. Tudo isso para vislumbrar novos portais que se abriram no meio de um nada, saturado pelo cansaço de onde eu vinha, das pessoas andando morosas em círculos… Hoje, usam-se mais filtros, tanto nas fotos quanto nas seleções que a gente quer levar para o resto da vida, incluindo pessoas e mapas de fuga para o encontro com o cósmico. Globalizadamente. Foram tantos lugares, que tenho sempre um pé em mim que inflama, vira e mexe. Quer mais. Abnegado. Por vezes, nem sabe o que faz, nem por onde anda. Acho que deve ser por isso que ele tem realizado tanto, apesar de meio manco. Quem se mancou de vez é que sabe!

ÁCIDA

A escrita corrói o que pouco se entende, mas ainda assim constrói. Afinal, da ferrugem também se proliferam microorganismos capazes de romper correntes, liberando os agentes de ação dessa inércia então suposta. Por isso, o vício por ela, que não se crê tão ignorante quanto nós, falantes intermitentes de qualquer coisa-nada. Na sua lúcida acidez, tenta transcrever o som das artérias ao bombear litros de sangue, este produzido por órgãos internos doloridos por tamanha orquestração de sentimentos, da estridência das paixões aos graves tons mortais da mais barítona existência.

bueiro de parede

Azeda que dói, porque escreve com franqueza, franzindo a testa ao testar seus próprios limites. Remédio amargo que cura doença antiga. Quer-se velha, porém em pleno viço. Quer ser sumiço quando tantas presenças já não convêm. Quer um indício de pertença aos céus mais intranquilos, apenas por saber da maioria dos infernos e de seus fogos ancestrais. Estes sim produzem mais ais e infâmias, fomes insolentes, gaitadas, saliências, tragos que se afundam nas horas, um peso sobre o próprio corpo que traz tanta leveza.

Quem é a musa que distraía poetas do ostracismo e hoje acomete novos idealismos de apenas ser para si mesma? Quem, à resma farta de papel, se propõe banquetes regados a orgias transverbiais? Quem, com uma voz desse tamanho, ainda segura pena molhada ao tinteiro por sentir que contribui com a humanidade? No fundo desse ego tem sempre uma morte, assim como cada orgasmo tem seu fim, tal uma onda, no vai e vem que seca e banha a mente, enquanto salga a carne. Transparece tanto, porque não teme. Transpoétikas

Tendo-me com árvores. Entendo-me com elas. Desfolhadas ou de copas cheias, é na seiva que o interior do mundo se reflete, assim como os banhos de lua das marés. Em diálogos de vento há mais dança que qualquer corpo morto, sopro de vida solta como quem vai e volta. Quando quer. Inteira aorta. Sentar na raiz para bater à porta, reclinando tronco ao tronco, nessa troca intensa e incensória entre um sim e outro ser. Ramifincar os pés é como refolhar após longa chuva.26114119_10215264090986065_8008050313304411145_n

Tantos termos em voga, tanta moda estragada. Quanta toga furada de juiz de direito com desculpa esfarrapada. Quanto empoderamento esfregado na cara do politicamente correto, armado com dedo médio na mídia social, pronto para denunciar qualquer opinião contrária. Tanto empoleiramento de caráter, tamanha a opressão. Fuga dos galinhas. Juventude sem rua nasceu para brigar do portão para dentro de casa, com suas regalias. Tem medo de largar o controle, o país, os pais, o patrão, a mulher ou o marido, porque insiste em aceitar abusos, fingindo que ama-de-todo-coração, produzindo canudos, pilhas de certificados e filhos e contas e cartões e sermões de missa hipócrita, imposta à massa submissa à eleição da televisão. Quando não há Deus, há negação. Autoria vencida de gente barbuda altamente qualificada em cometer suicídio. Que se repete na bibliografia de quem não repetiu de ano, mas nunca passou um pano no chão. Quantas falas interpenetradas haverão até se ser compreendido? Na censura, além de carreiras destruídas, haverá o perdão? Arte. Ó, a arte! Será mais bela por ser transmutada a alma do homem-lixo? Mas haverá Arte assim tão divinal ante tanta cancela fechada? Fechar as bocas de aguarrás será mais causticante que os de boca rasa? Paremos de julgar.

CATACLISMO

A raça humana ainda persiste na ilusão da separatividade, por isso mata, decompõe a natureza, vinga-se do próprio espelho e desconstrói o sentido caduco da terminologia “religião” – do latim, religare, deixando de se unificar ao próprio mestre interior, esquecendo-se de que ela é o próprio deus e não esses outros quaisquer que estão no comando, a mando de não sei quem, qual seja a entidade ou representação.

A maioria, não sendo capaz de atuar como sujeito de princípio ativo e se responsabilizar por seus atos – falhos ou não, sujeita-se a ser nada além de sombra em caverna, comidinha na mão dos patrões, eterna vítima desses ladrões de alma. Projeta-se sempre ao exterior, ao ditador, ao príncipe, ao invisível promissor, porque olhar para si do lado de dentro parece dilacerante. Miseravelmente, liga-se à prestidigitação canhestra da televisão, que veste o mau gosto, elege a tragédia preferida e induz passividade à massa anticrítica até uma completa aniquilação de sensibilidades.

Assim, frequenta a esquizofrenia desses templos vários e se fragmenta, justamente por não se apropriar da própria divindade. Quem acredita nesse deus da morbidade, nunca há de se sustentar como indivíduo. O Amor não é teatro. Portanto, abrace tudo o que é vivo enquanto há tempo, mas nada que te faça indigno, nenhuma coisa que te acomode inválido. Sentimento nunca deveria ser assassinado, em qualquer parte do mundo, porque jamais seremos uma perna extirpada se nos adequarmos ao abraço do universal. Estaticidade nunca alargará um horizonte já eclipsado. O brilho, que deveria ser próprio, reflete das telas direto para os rostos aficionados. Redes sociais. Sabemos cada vez mais de um tudo sem ainda percebermos o todo ou quão valemos aos olhos dos outros. Quem se importa?

Ser o que se é, preto, mulher, aleijado, criança, gringo, aborto ou selvagem garantirá mais coragem como reserva salvacionista nos próximos anos. Mire a verdade, mije no fuzil, não vote à cabresto, nem que seja gado. Seja grato. Tolere, repense, crie, medite. Beije a boca das borboletas, componha um novo adágio, abandone relacionamentos falidos e convicções reducionistas, pois cada caso é um caso. O prazo é curto. Destrua miragens num piscar de olhos chorosos – o colírio vira néctar quando saímos para flertar com o intraduzível.

PAOLA

ACLIMATAÇÃO

Vou rosnar para aquele furo alto e aceso lá no pretume do céu, espumando neves de rubor. Quem sabe ele não rasga a noite mais cedo e então eu possa me queimar só com o vento. Uivo de abrir cortinas, de arrepiar os que dormem, com as pontas dos medos. Todos duros. A rigidez é cadavérica para quem vive sem perigos nesse mundo. Escalarei paredes pondo os pés sobre as estrelas de vidro. Qualquer tropeço, cacos em lágrima. Rasgo o equilíbrio entre pentagramas verdes. Escorrego na chuva quando precipito. Meu precipício é a curva, não a retidão do salto. Solo arenoso para este corpo movediço. Escapo para o mais cavernoso templo, sem prece nem pressa, senão caio feito anjo à presa do inimigo. Não há vela. Portanto, sem sombras acesas nas paredes. Enxergo pelos ouvidos que irá demorar o amanhecer. Acordo mais ainda. Faço acordo com uma vontade infinda de alcançar o que se afasta de mim. Passo a nadar no impulso, já que os pulsos me cerraram às correntes. Ferrugem e tétano. Tento ter pernas ainda, mas para quê as quero? Desejo o logo, sem a lógica da espera mil horas. Carrego os ponteiros no calcanhar, poeira na sola, ampulheta solar. Escoa o tempo junto ao orvalho, baixam-se as nuvens reveladoras de horizonte. Eis que um mar escuro se afasta, as ondas abrem caminho sem correnteza, com a certeza volúvel da água. Agora meus olhos estão cheios dela. Vou parir. Vou parar de ir sem volta. A menina vai ao chão no nascer, desce das costelas da mãe até a última sorte, quando de novo cai: enfim, para outra morte eternecida. Ela então se chamaria Aurora.