AUSCULTA ATIVA

Estude o próprio silêncio. Arcar com os contrastes de tantas vozes internas e ruídos vindos de fora pode parecer malabarismo do que já deixou de caber entre apenas dois braços. Todo perfeccnionismo deveria servir para notar e anotar o que mais enriquece, rabiscando da lista de presenças qualquer pista de desassossego por encargo ou descargo de consciência.

Um exercício de atenção plena ajuda a auscultar sem tropeçar nas palavras do outro, resguardando língua dentro da boca, em poda minuciosa dos balões de pensamento. Cada qual respira conforme a própria natureza, portanto aprenda a aguardar sua hora de falar mais relevâncias curtas que emitir sentenças fartas de certeza. Nem toda gente necessita de opinião constante ou da sua concepção de inconformidade, por exemplo. Pitacos não são petiscos para iniciar boa conversa, especialmente com a cabeça em desprezo claro às afinidades.

Ego cheio geralmente rende só papo furado. Pressa de dizer também se traduz na falta de educação, até quando se concorda. É como uma baforada de cigarro na cara do não-fumante, ou um sorriso forçado ao se querer bem aceito, faltando-se a si mesmo ao lado. Ninguém é obrigado a nada. Diálogo compreende presença sentida, um toma-lá-dá-cá preenchido por equilíbrio paciente e, embora surta efeito terapêutico, não é sempre sessão de análise, não pede aconselhamento, julgamento, nem passagem.

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PATA

minha destra contém sulcos de vida
linhas mestras anciãs a sustentar bagagens
estapeia caras pálidas para acordar
aplaude os talentos da própria verve de escrita canhota
masturba o tempo enquanto acarinha amor à liberdade
amassa passados tantas vezes reescritos
para amansar o cachorro bravio da mente
toca pedra de Medusa e vira Midas
taca diamante nas vidas e tece artes
modela o barro da costela de Adão
e resgata Lilith da Eva, galinácea poética
ave de arribação sobre árvores pagãs
a parir ovo cósmico com as mãos cheias
é irmã, alquimista, reikiana e quiromante
com aperto firme antes de virar moda-gaia
deixando namastê de lado e terceiro olho de revés
por já prever quem nunca foi de sua escola
recusa esmola espiritual forjada na culpa e na dor
não cola mais nessa prova “divina” de virar a outra face
também não se vinga, apenas tatua lembretes à palma
enquanto vai ao reino dos céus e às compras
imperiosamente mortal, hoje resignada

CAMUFLAGEM

Um desenho de Sara Anstis – algo sobre manter-se protegido desse mundo falocêntrico -, lembrou-me o dilema do porco-espinho, do filósofo alemão Schopenhauer, quando inspirado por uma de suas escaladas aos 16 anos.

Fazia uma “quentura animalesca” no alto da montanha Schneekop, quando pastores embriagados se amontoavam em espaço exíguo – inspiração para a parábola (Hedgehog’s dilemma), presente na obra Parerga und Paralipomena.

Diz-se que, por causas invernais, porcos-espinhos se apertavam na tentativa de manterem o local aquecido. No entanto, pelo fato de acabarem se espetando todas as vezes, tinham de manter certa distância.

O conto, famoso também por ser citado pelo pai da psicanálise, versa sobre a necessidade de socializarmos, ao mesmo tempo em que, por várias circunstâncias traumáticas, devamos nos distanciar uns dos outros.

Por cautela ou respeito, amor próprio ou privacidade de direito, afastamento é necessidade humana para a manutenção de nossos machucados. Deve haver um limite para as feridas e experiências desconfortáveis que, nem sempre, nos fortalecem.

Conviver compulsoriamente, a meu ver, só produz mágoas. Especialmente em final de ano, quando o dano moral é causado pelo “bem” da família e da sociedade. Danem-se as peles de cordeiro dos lobos acobertados por um Deus falido. O inverno nos convida a um bom cobertor, amores reais e cama com livros. Danem-se vocês!

RESISTÊNCIA

Dei de misturar chá com café
Enquanto oleosos crentes tentam untar sua fé com água
Há copos sobre a televisão e negros corpos sob seus tapetes
Notícias a sangue frio fervilham numa espécie de batismo

Sem compactuar com marchantes, não peregrino absurdos
Meto a íngua no olho do próximo para ver se capturam o óbvio
Obituários dividem a sessão com extinção de ministérios
Nesse jornal, todos morreram sem saber, no poder ainda

Já nossos assassinados se divinificam para puxar o pé
Criam asa, apesar de destruídas as placas com seus nomes
No Brasil, as ruas são livres só para as almas penadas
Pena de sorte será a lei do bandido formado professor

Violados em direitos, artistas defecam no Palácio do Planalto
Nem se trata de outra instalação polêmica contra povo do bem
É epidêmica a diarreia quando muitos estão sem casa nem ar
Obram, resistentes, até calarem suas vísceras para sempre

O CORTADOR DE GRAMA

Todo mês, vem um homem cortar grama, sentado em seu minicarro barulhento e dotado de lâminas potentes. Talvez meu sonho de infância, se criança hoje fosse, seria pilotar um aparador desses, subindo e descendo jardins quase inacabáveis, com seus muitos relevos, nessas reviravoltas.

Gosto quando vem o cheiro do mato às narinas, tão forte de fazer espirrar. O mais engraçado é quando saímos para o trabalho pela manhã e as roupas atraem poeira ao passarmos por dentro da nuvem de capim. Logo rimos do desconforto uns dos outros, ao baterem-se da blusa às calças, como quem acabou de pegar uma estradinha de terra.

Outro fenômeno que fascina o olhar da gente é sentir o verão tostar a relva pelo calor, fazendo amarelescer esse piso instantaneamente e, quase de um dia para o outro, já com a primeira chuva, tudo voltar a ficar bem verde, como se revestido por um tapete vicejante, onde o ar puro se maneja, voltando a acalmar nossa linha de respiro.

FOTOGRAFIAS

Têm sido tantas as memórias ao longo desses anos que, de quando em vez, dá um branco nostálgico e as revisito no porão da antessala de incontáveis vidas para ver o que ainda sinto. Extrair de um instante a mesma marca de afeto parece inalcançável, mas a evocação do passado ainda nos provoca, reavivando um orgulho vaidoso do que se foi e do que ainda se é: bandas de rock, palcos, saraus, escritos, artesanias boêmias, amigos. Então, eu vejo que valeram até alguns filmes queimados. Do que não se rasga ou se perde, ainda se aproveita em choro ou riso fácil. São resgates de remendos em retalhos guardados, bolores de alguns egos em brigas já esquecidas, discursos acalorados em mesas de bar, razões desarazoadas pelo furor juvenil, paixão demasiada transpassando vários corpos, ruas sem saída. Tudo isso para vislumbrar novos portais que se abriram no meio de um nada, saturado pelo cansaço de onde eu vinha, das pessoas andando morosas em círculos… Hoje, usam-se mais filtros, tanto nas fotos quanto nas seleções que a gente quer levar para o resto da vida, incluindo pessoas e mapas de fuga para o encontro com o cósmico. Globalizadamente. Foram tantos lugares, que tenho sempre um pé em mim que inflama, vira e mexe. Quer mais. Abnegado. Por vezes, nem sabe o que faz, nem por onde anda. Acho que deve ser por isso que ele tem realizado tanto, apesar de meio manco. Quem se mancou de vez é que sabe!

ÁCIDA

A escrita corrói o que pouco se entende, mas ainda assim constrói. Afinal, da ferrugem também se proliferam microorganismos capazes de romper correntes, liberando os agentes de ação dessa inércia então suposta. Por isso, o vício por ela, que não se crê tão ignorante quanto nós, falantes intermitentes de qualquer coisa-nada. Na sua lúcida acidez, tenta transcrever o som das artérias ao bombear litros de sangue, este produzido por órgãos internos doloridos por tamanha orquestração de sentimentos, da estridência das paixões aos graves tons mortais da mais barítona existência.

bueiro de parede

Azeda que dói, porque escreve com franqueza, franzindo a testa ao testar seus próprios limites. Remédio amargo que cura doença antiga. Quer-se velha, porém em pleno viço. Quer ser sumiço quando tantas presenças já não convêm. Quer um indício de pertença aos céus mais intranquilos, apenas por saber da maioria dos infernos e de seus fogos ancestrais. Estes sim produzem mais ais e infâmias, fomes insolentes, gaitadas, saliências, tragos que se afundam nas horas, um peso sobre o próprio corpo que traz tanta leveza.

Quem é a musa que distraía poetas do ostracismo e hoje acomete novos idealismos de apenas ser para si mesma? Quem, à resma farta de papel, se propõe banquetes regados a orgias transverbiais? Quem, com uma voz desse tamanho, ainda segura pena molhada ao tinteiro por sentir que contribui com a humanidade? No fundo desse ego tem sempre uma morte, assim como cada orgasmo tem seu fim, tal uma onda, no vai e vem que seca e banha a mente, enquanto salga a carne. Transparece tanto, porque não teme. Transpoétikas

Tendo-me com árvores. Entendo-me com elas. Desfolhadas ou de copas cheias, é na seiva que o interior do mundo se reflete, assim como os banhos de lua das marés. Em diálogos de vento há mais dança que qualquer corpo morto, sopro de vida solta como quem vai e volta. Quando quer. Inteira aorta. Sentar na raiz para bater à porta, reclinando tronco ao tronco, nessa troca intensa e incensória entre um sim e outro ser. Ramifincar os pés é como refolhar após longa chuva.26114119_10215264090986065_8008050313304411145_n

Tantos termos em voga, tanta moda estragada. Quanta toga furada de juiz de direito com desculpa esfarrapada. Quanto empoderamento esfregado na cara do politicamente correto, armado com dedo médio na mídia social, pronto para denunciar qualquer opinião contrária. Tanto empoleiramento de caráter, tamanha a opressão. Fuga dos galinhas. Juventude sem rua nasceu para brigar do portão para dentro de casa, com suas regalias. Tem medo de largar o controle, o país, os pais, o patrão, a mulher ou o marido, porque insiste em aceitar abusos, fingindo que ama-de-todo-coração, produzindo canudos, pilhas de certificados e filhos e contas e cartões e sermões de missa hipócrita, imposta à massa submissa à eleição da televisão. Quando não há Deus, há negação. Autoria vencida de gente barbuda altamente qualificada em cometer suicídio. Que se repete na bibliografia de quem não repetiu de ano, mas nunca passou um pano no chão. Quantas falas interpenetradas haverão até se ser compreendido? Na censura, além de carreiras destruídas, haverá o perdão? Arte. Ó, a arte! Será mais bela por ser transmutada a alma do homem-lixo? Mas haverá Arte assim tão divinal ante tanta cancela fechada? Fechar as bocas de aguarrás será mais causticante que os de boca rasa? Paremos de julgar.