CATACLISMO

A raça humana ainda persiste na ilusão da separatividade, por isso mata, decompõe a natureza, vinga-se do próprio espelho e desconstrói o sentido caduco da terminologia “religião” – do latim, religare, deixando de se unificar ao próprio mestre interior, esquecendo-se de que ela é o próprio deus e não esses outros quaisquer que estão no comando, a mando de não sei quem, qual seja a entidade ou representação.

A maioria, não sendo capaz de atuar como sujeito de princípio ativo e se responsabilizar por seus atos – falhos ou não, sujeita-se a ser nada além de sombra em caverna, comidinha na mão dos patrões, eterna vítima desses ladrões de alma. Projeta-se sempre ao exterior, ao ditador, ao príncipe, ao invisível promissor, porque olhar para si do lado de dentro parece dilacerante. Miseravelmente, liga-se à prestidigitação canhestra da televisão, que veste o mau gosto, elege a tragédia preferida e induz passividade à massa anticrítica até uma completa aniquilação de sensibilidades.

Assim, frequenta a esquizofrenia desses templos vários e se fragmenta, justamente por não se apropriar da própria divindade. Quem acredita nesse deus da morbidade, nunca há de se sustentar como indivíduo. O Amor não é teatro. Portanto, abrace tudo o que é vivo enquanto há tempo, mas nada que te faça indigno, nenhuma coisa que te acomode inválido. Sentimento nunca deveria ser assassinado, em qualquer parte do mundo, porque jamais seremos uma perna extirpada se nos adequarmos ao abraço do universal. Estaticidade nunca alargará um horizonte já eclipsado. O brilho, que deveria ser próprio, reflete das telas direto para os rostos aficionados. Redes sociais. Sabemos cada vez mais de um tudo sem ainda percebermos o todo ou quão valemos aos olhos dos outros. Quem se importa?

Ser o que se é, preto, mulher, aleijado, criança, gringo, aborto ou selvagem garantirá mais coragem como reserva salvacionista nos próximos anos. Mire a verdade, mije no fuzil, não vote à cabresto, nem que seja gado. Seja grato. Tolere, repense, crie, medite. Beije a boca das borboletas, componha um novo adágio, abandone relacionamentos falidos e convicções reducionistas, pois cada caso é um caso. O prazo é curto. Destrua miragens num piscar de olhos chorosos – o colírio vira néctar quando saímos para flertar com o intraduzível.

PAOLA

ACLIMATAÇÃO

Vou rosnar para aquele furo alto e aceso lá no pretume do céu, espumando neves de rubor. Quem sabe ele não rasga a noite mais cedo e então eu possa me queimar só com o vento. Uivo de abrir cortinas, de arrepiar os que dormem, com as pontas dos medos. Todos duros. A rigidez é cadavérica para quem vive sem perigos nesse mundo. Escalarei paredes pondo os pés sobre as estrelas de vidro. Qualquer tropeço, cacos em lágrima. Rasgo o equilíbrio entre pentagramas verdes. Escorrego na chuva quando precipito. Meu precipício é a curva, não a retidão do salto. Solo arenoso para este corpo movediço. Escapo para o mais cavernoso templo, sem prece nem pressa, senão caio feito anjo à presa do inimigo. Não há vela. Portanto, sem sombras acesas nas paredes. Enxergo pelos ouvidos que irá demorar o amanhecer. Acordo mais ainda. Faço acordo com uma vontade infinda de alcançar o que se afasta de mim. Passo a nadar no impulso, já que os pulsos me cerraram às correntes. Ferrugem e tétano. Tento ter pernas ainda, mas para quê as quero? Desejo o logo, sem a lógica da espera mil horas. Carrego os ponteiros no calcanhar, poeira na sola, ampulheta solar. Escoa o tempo junto ao orvalho, baixam-se as nuvens reveladoras de horizonte. Eis que um mar escuro se afasta, as ondas abrem caminho sem correnteza, com a certeza volúvel da água. Agora meus olhos estão cheios dela. Vou parir. Vou parar de ir sem volta. A menina vai ao chão no nascer, desce das costelas da mãe até a última sorte, quando de novo cai: enfim, para outra morte eternecida. Ela então se chamaria Aurora.

IMERGÊNCIA

Não tema o mergulho,
esguicha o orgulho de lado no lago do amar.
O espelho das águas é encontro com teu próprio eu,
sem que este seja o ego sujo pelas mágoas,
cego ante os mais belos transbordamentos.
É o véu de si que se magoa fácil.
Nossa vida é água indócil.
Fluidifica, submerge, emerge e transcende.
Bebe do teu tempo que é agora!

PAOLA

ERA

Não há mal que o tempo faça senão por tua conivência. O entusiasmo, a mentira, a glória ou a violência, tudo passa. Memória é para se guardar em vidro que racha com o vento, mas dá alento enquanto dali, bem preso, não vaza. Pode demorar um ano, dez, cinquenta qualquer cicatriz, por muito que entrave quem a diz ser tão profunda. Há cura a quem não se amargue dessa vida. Há colheres de chá e de açúcar, conversas e silêncios em pitadas. Cedo ou tarde, o alarme acordará quem se arme por desespero. Na espera de tudo se acabar, acabam-se de medo.

Enquanto não vem o esquecimento, procura lembrar…

O sol é uma ficha telefônica para os que se perderam em pores-de-sol de antigamente. Completar a ligação é unir os pontos e perceber o luar do outro lado da linha. Nas entrelinhas, percebem-se as estrelas que ainda pairam no céu: o teu será o mesmo que vejo? O futuro está nos olhos da cigana, que, pela gana por dinheiro, esqueceu de ler a própria mão. Quais são os teus pesadelos? Sonhos são mais hábeis. Abrem-se mil destinos. Escolhe a eternidade, que na tua idade ainda é coisa de menino.

PAOLA

AGOSTO

Mês dos ventos, traga-nos o que o calor levou. Saia de Marilyn Monroe e entre pela janela. Liberdade para não temer o que virá, porque logo saberemos dela. Debaixo para cima, de cabeça para um facho. Dê luz! Banhe rostos com essa fresca lambida dos Deuses nus. Arraste o pó da estagnação e lance o pólen às fertilezas. Assim, brotaremos limpos em alma como após uma lavagem à palo seco. Seremos velhos, porém enxutos, sem essa roupa suja que se lava em casa e não a esmo, sem atingir os olhos atentos dos desamados, nem tingir os rios com sangue derramado como se fosse leite.

DESVANECIMENTO

A razão jorra o que do ralo escoa, quer encurralar o interlocutor de toda forma. Os mais precavidos não meditam sobre qualquer desforra, deixam a prosa tomar seu próprio rumo quando esta se quer monólogo verborrágico. Descarregar é preciso? Trágico! O bom é deixar desaguar em praia mansa, de coração, ainda que o barco esteja torto. Antes que os atiradores de facas acertem o alvo sem oferecer maçã, deve-se transportar o corpo, não como quem foge à resolução amiga, mas à briga mesmo. Com o tempo, o espírito cansa desse afã. À esmo se fica quando a justiça não dá mais liga e se esquece de ouvir o outro. De tão absorto, nem o vê partir. No fim, percebe com a garganta já rouca: é tarde demais. Tarde demais para sentir.

PAOLA

CERCO

Não era nada disto
Aquilo era um ritmo
Um istmo
Cisco no olho que desapercebe
A lebre indo se esconder
Era um buraco negro
Uma roda gigante
Imperceptível, a meu ver
Ceguei para a realidade
Verdade que ignora
Vou embora sem olhar para trás
Até porque a vista ignora
O que o espírito faz

PAOLA