Buquês são suicidas

Elvira Vigna (1947 – 2017)

Elvira Vigna conta que, um dia, saiu para brincar no apartamento da amiguinha de infância. Como não se sentia bem em elevadores, decidiu ir pelas escadas. Foi quando, subitamente, avistou alguma coisa despencar do outro lado da janela do saguão. Acreditou ser um colchão caindo e nada comentou com ninguém, até porque se sua mãe soubesse que os moradores daquele prédio se comportavam de modo tão desleixado, não a deixaria visitar sua coleguinha por mais vezes. O tempo passou e ela então soube da notícia de que, naquele mesmo prédio, uma noiva havia se jogado da varanda. Foi aí que se deu conta, ligando os fios da memória, que não se tratava de um branco objeto lançado à revelia. Queria entender esses encobertamentos da imaginação, desdourar algumas pílulas. Se bem que as crianças é que enxergam além. Buquês são suicidas.

FLORAÇÃO

Quando a natureza encontra um olhar distraído, sua beleza vem refrigerar qualquer ânsia por calma. Lembramos de ser, sem insistir no calor dos pensamentos. A atribulação descansa. Começamos a sentir profundo antes de falar, fazer, forçar, querer ou reagir no mesmo segundo em que a mente comanda. O outro, o alheio, no entanto, não há. Ao menos, nunca do jeito que supomos. Incidimos o viés do solar por entre todas essas nublâncias.

Passamos a habitar pele de criança e a observar felinamente as incertezas, apurando verdades. Microscópicas ou telescópicas, alcançamos prismas, reciclamos nossa própria plasticidade. Na absolvição dos julgamentos, permitimos que os desejos já se encontrem disponíveis dentro da própria paisagem. Porque somos parte dela, viva ou morta, biomas de reciprocidade, esferas cosmogonais, sangue de seiva ou aorta. Saliva doada em testes de DNA, cartografando nossas ancestralidades, reescrevendo a história.

Aportamos no mundo em somas de corrente eletromagnética. Entramos e saímos da corporeidade para vivenciar, mesmo sem nada antever. Aprendemos parcamente a conviver, a contar, a trabalhar para sobreviver em um sistema ainda irreconciliável. Estremecemos a mesma carne que comemos, antropofágicos e sem memória. Alguns reproduzem, enquanto outros escolhem suas famílias a dedo, apontando para o bem-me-quer do possível. Entre pétalas e poros largados ao vento, nós ainda resistimos e, com a fragilidade dos mais fortes, aos cortes e inteirezas muito nos assemelhamos.

Kawó Kabiesilé

meus braços em X apontam para o alto
são machados de Xangô forjados na força dos raios
desaquietam pelo fogo
ateiam justiça ao dono dos lacaios

desfazem o nó com esses deuses mais caros
talhados em caras de pau-brasil sem cor
cheios de culpa e cupim
tripudiando sobre túmulos lacrados
fazendo a lágrima cair mais bruta
que a chuva do fim dos tempos

até tudo se tornar pedra de novo
e minha pedreira irromper vulcão no ardor
arranca pedaço do meu livro
se preciso for, folha a folha
mas presta atenção ao recado:

se tens medo, estás perdido
se vens cedo, anoiteço contigo calado
sem dor, sigo infalível em minha nobreza
descarrega o peso do segredo
à mesa posta para ti
senhor além do presente-passado

Om mani padme hum

No dia em que vi Buda sobre o túmulo de um rapaz, senti a transitoriedade da vida passar sorrateira, num ranger de galhos, entre o instante da ventania e o encurvar da chama. Aquele toco de vela acesa ainda resistia, mas tinha certeza de que todo mundo, cedo ou tarde, morreria. E se libertaria desse medo de desaparecer, de como ou quando o corpo acabaria. Sem porquês.

Ele tinha menos que 24 anos. Cachorrinhos de louça também decoravam a grama, entre cartas escritas em letras coloridas. Doeu ali a dor da empatia, da humanidade que persiste apesar de tantos nós. À garganta, só silêncios. Luto. A despedida parece sempre intensificar o amor, aumentar a saudade, compensando afetos tristes. Na falta do outro, agarrar-se a objetos parece proteger a nossa pele do reconhecimento da própria finitude.

Ao tentarmos reconstituir uma lembrança, no entanto, acabamos por misturar os tempos. Sem cronologia, passado, presente e futuro podem se confundir. Memórias e seus lapsos à beira de uma lápide, à espreita de uma estátua em posição de lótus.

PARA OUVIR

comecei a brincar com essa pintura durante um satsang online, que falava sobre a audição de si, silenciosa e interiorizada, livre de outras vozes intrusivas que desvirtuam a gente. bregamente, me veio à memória a canção Listen to your Heart, do Roxette, em conexão com a proposta. aliás, alguma coisa do rosto retratado me lembrou a vocalista Marie Fredriksson, falecida ano passado. sempre me refugio naquela voz quando um karaokê embriaga minhas vontades tardias. mas, enfim, retomei os experimentos da infância por falta de talento com esse mundo tão carrancudo. pode ser que essa fase passe de novo e volte consistente para a literatura, embora uma contenha a outra, bem como a música, dentro desses multiversos tantos que habito. jamais me permitirei enclausurar no conselho de um tolo sobre me concentrar numa expressão só. fodam-se os requisitos de grupelhos lambedores de alheio saco. melhor esvaziar o meu com as sensações que me invadem o momento. por exemplo, geralmente começo a pintar para me aliviar de alguma contenda interior, como terapia mesmo, sem planejar nada. olho a tela em branco e desenho, depois vou sentindo as cores, sem qualquer ensaio. tenho feito isso para encabular qualquer perfeccionismo. precioso é o aqui. luxuoso é ser no agora.

CHAGAS ABERTAS

acrylic on canvas • 17 / agosto / 2020

hoje senti tanta raiva que meu terceiro olho deve ter saltado à força das órbitas em sangue vivo, soltando fogo pelas ventas por sublimação. na falta do verbo, em razão do choque, resolvi pintar o intraduzível. será que ninguém consegue ver o óbvio ou o óbito diário da nossa dignidade normalizou o surreal?

o brasil se tornou o pior de todos nós. é um velho autoritário que não admite o próprio câncer, mas entrega suas metástases quando mata o feminino, o preto, o pobre, refazendo ciclos seculares de escravidão, traumas, fobias de todo gênero e genocídio. não bastasse o terror da pandemia, a inquisição voltou para revogar qualquer réstia de poder ao povo, taxando conhecimento como se artigo de luxo o livro fosse.

eis uma terra tropical sem revolução nem progresso e, mesmo que os direitos sejam alheios, o desespero costuma vir sem revolta alguma. fizeram o favor de suicidar a réstia de esperança com uma criança sendo rechaçada por abortar o filho de seu estuprador. os ditos cristãos queriam ver a menina morta, exposta, assim como fizeram com o seu cristo de estimação.

parece que o tal messias veio com tudo nessa era, não é mesmo? desgraça feita não tem volta nem perdão (parabéns a todos os envolvidos, jamais esquecerei de vós). quem sabe, a sorte do soco cármico às fuças de cada fascista os tornem menos cegos. mas acho que não. e não à toa esse país produz grandes escritores e artistas: a literatura e a arte ao menos servem senão como lenitivo para essas dores, uma forma de prevenção ao adoecimento coletivo.

Lição

Quando o coração quer enrugar diante da estupidez e a rigidez inflama, saio ao encontro das flores. Seus talos me ensinam quanta força há na delicadeza, mesmo que a mão do vento insista em nos arrancar do chão ou o homem pise sobre nossas cabeças.

Cedo ou tarde, eles se aperceberão do gesto impensado ao inalar da inteligência em fragrância, pura vingança do plano sutil, que deixa vestígios de perfume ao menor contato. Isso porque de espinhos já estamos fartos.

Quem sabe um dia o bruto aprenda pelo exemplo do broto e desabroche em meio ao asfalto da alta estrada: ainda haverá caminho para o paraíso? – Pergunta-se já com o sorriso cheio de pétalas. Estaria ele morto?

#comfiltro

Ainda acho charmoso ver gente reter moléculas de câncer enquanto disfarça o frio e olha para o nada com a munheca quebrada.

Voyeur de filmes franceses desde cedo, aprecio esse alternar entre o álcool e o flerte com alguma propriedade na pose. Eis o truque dos intensos ou propensos à socializada, intimidados pelas mãos que não sabem onde enfiar e adulterados por uma rouquidão inconfundível. Caras carteiras sobre as mesas reforçam esse ar sedutor, apesar de todo um investimento financeiro na própria aniquilação. Cigarros entre dedos e lábios: eis que a prestidigitação entre o oral e o fálico deflagra dependências físico-químicas.

Esse glamour só vai perdendo a força quando vemos nossos pais tomarem café soprando fumaça todos os dias, porque não se veem mais livres que antes. Aliviam-se entre suas memórias. Embora esta pareça ser sua única liberdade, a rotina do vício persegue suas vontades dentro do escuro, feito um fantasma carente de ectoplasma ou um vampiro de sangue retesado. A brasa ao menos oferece uma momentânea direção, luz no fim do túnel do que quer que seja, só para distrair o.

Isso os torna mais adultos, acentuando o amarelo dos dentes, assim como suas visitas frequentes ao médico. Batem à porta da indústria farmacêutica, outra abatedora, entre tantas normalizadas por cenas bonitas em comercial de pasta clareadora.

O fato é que a morte nos rodeia feito uma baforada, basta sair para caminhar no parque e ver uma criança dar seus primeiros passos sobre uma bituca, com a astúcia de uma bailarina versada em pneumática.

Abertura de chakras

É preciso salvar o salvador enquanto ainda somos crianças. Curar suas feridas por sentirmos essas chagas abertas também como as nossas. Amenizar a dor de um mundo inteiro carregado àquelas costas. Levitar por outras esferas. Desatar os nós de qualquer corrente religiosa atada aos pés. Amar o livre-arbítrio feito avatares que se encontram em coexistência transcendental. Iluminar a compreensão sensória e fraterna do humano espírito. Força trina presa à memória sem cruz, leve, elevada pelos descobrimentos interiores. Arquétipos do todo em cada fagulha de nós, habitando células. Sem o perdão de séculos por não existirem mais culpados. Sem castigos de um deus. Nem castidades. Só a vastidão do voo sagrado, despido de pecados, porque tudo são nomes atribuídos por aqueles atentos às falhas. Corpos que se retroalimentam da carne exposta aos riscos de sobrevivência. Seremos animais extintos quando? A inocência é planta, brota, cresce, revigora o agora, resiliente e infinita. Matéria etérea de vidas na Terra e para além do aqui, de dentro para fora, aflorando o novo.

ELA SE SAFOU

Ana C., sempre safa em sua Poética. Etimologicamente, a palavra Safari significa “jornada” na língua Swahili, provida do árabe, “viagem”. Inspirada por ela, minha expedição nunca cessou, interna e externamente. Quando sinto que ficou pequeno, não hesito, saio para tomar ar antes que me arranquem as árvores, antecipo o vírus no olhar alquebrado do inadvertido. Asas que jamais se acomodam, sabemos, podem a muitos incomodar. Quando se abrem ao mundo pela primeira vez, rompem enlaces, quebram janelas e portas para que alguns mais sensíveis enfim acordem. Das próximas vezes, já não alardeiam mais, deixam adormecidos os que preferem perder o voo, no seu aconchego amarrado às convenções, às prisões mentais das péssimas notícias, sem saída, porque desconhecem as entrelinhas de si mesmos, desinteressados do que não for estardalhaço.

Nesse safari de mais idas que vindas, aprendi a observar a vida selvagem, entendendo que não se pode salvar a gazela das presas do leão ou a girafa recém-nascida a despencar da brusca altura de sua própria mãe, porém, sempre me soube pertencente à graça e à desgraça da raça humana, por isso me familiarizo, solidarizo e luto. No momento, enlutada por tantas mortes, revoltada com todos os extermínios, reais e simbólicos, entretanto procuro me manter desperta, aparentemente calada. Reescrevo tudo o que erro para saber onde me encerro e, então, poder começar de novo. Ao velho é que não retorno, porém muito o respeito. No fim de tudo, a distância tem sido o melhor remédio, até que se encontre uma cura. A gente tem?

Escombros

Apesar do seu peso, o mundo é bom. Tem umas edificações bonitas, uns muros pintados por humanos bem intuídos que perduram por quase toda a eternidade. Até que nomes sejam esquecidos e a história amanheça amortecida por novos episódios. Pouco a pouco, essa matéria vai se desfazendo entre explosivos, incêndios ou desastres naturais, dentro de um ciclo de guerras ancestrais até não restar mais pedra sobre pedra. Criação soterrada, escavada, resgatada para que relembremos o que já fomos e, então, façamos planos de como passaremos a ser. Se evoluirmos, teremos exoesqueletos resistentes acoplados a espíritos da mais alta potência. Regeneração e desenvolvimento. Haveria morte? Temeremos ainda o tempo dos homens? O que Homo sum humani a me nihil alienum puto!

O PLANETA QUE SUSTENTA NOSSO UNIVERSO INTEIRO TEM SUSTENTAÇÃO DE SATÉLITE E LUZ PRÓPRIA.

É o Amor como lar: envoltório natural da nossa essência em transparência preservada. Todos a salvo. Sua luminosidade, por vezes, confunde-se com o alcance solar, entretanto não causa cegueira nem queimaduras à pele. Seus graus atravessam o plano físico sem encontrar barreiras. É meta suave e incisiva, compreende e perdoa, pois sabe conviver com as sombras que contrastam e, por isso, as enfatizam. Acolhe o medo em seu seio maternal, tranquiliza com as mãos emitindo raios de cura. Ensina a paciência nas linhas imensuráveis do tempo. Faz coleta silenciosa das lágrimas soluçadas aos quatro cantos dessa Terra para irrigar o olhar do espírito mais ressecado e fazer brotar a esperança. Age feito uma criança quando precisa brincar sem adulterar responsabilidades. Restaura belezas e assim levita por instâncias maiores.

Amar, portanto, cabe a todos que reclamam do abandono, que se irritam com a dor, que ferem, mas se soerguem para enfim andar firmados na consciência universal, solidários, porque sentem mais do que sabem sobre sua evolução humana. Afeto é corrente que não se desgasta ante o primeiro gesto de aparente desarmonia e aprecia o anhelo cristalino de viver para a vida eterna mesmo que tenha de sofrer com o ego atado ao corpo envelhecido pela morte. Quem ama tem sorte de pertencer sem se apegar aos valores externos nem às validações, não se compara ao que separa. O todo, que é céu estrelado, o abençoa feito avô, guiando viagens pela experiência. Reconhece tanto o fruto pelo cheiro como a árvore pela profundidade de suas raízes. Muitas matizes ancestrais, astrais vertentes e competências. Amor é ciência intergalática.

Tempo é só pó de infinito


E o que nos sobrará dos pães postos à mesa? E quem nos brindará em vinhos tão distintos quanto os daqueles que esperamos? Desmemoriados seremos por quantas outras gerações? Gestações de cosmogonia. A estrada grita contra os ecos do abismo sob outras paisagens. Partiu para longe. Nada permanece ao alcance das mãos. Conto nos dedos invisíveis quantas mães eu tive, quantos pais procriei, quantos amigos tornei irmãos de verdade no momento em que a vaidade ruiu qualquer combate de guerras passadas entre eras distantes. Gladiadores à espera de senhores ao portão cerrado por cães cérberos. As peles caídas recaíram na nostalgia presa às cirurgias plásticas. Antes artes fossem, pois estas sim permanecem. Ficam suas telas em nós como se reescrevessem o avesso do lado mais certo.

Meu eu fica passado com esse presente embrulhado no estômago pelo futuro que nos denuncia e prediz certeiro tal um carteiro feliz captura a luz do dia. O que seria de nós sem nossos avós falecidos esfacelados contra a grade da memória? O que será dessa voz presa à garganta por mais que cante ao pé da santa novas trovas antigas? Imemoriais. Cemitérios num agreste banhado a suor e sangue seco dos olhos anêmicos de fome. Paraísos movidos pela lembrança de Campos Elíseos, milharais asfaltados, vertigem de filmes e sonhos armazenados. Empilhadeira de prédios com cheiro de infância. Amarelinha na sacada até que um arco-íris arranhe esse céu acinzentado e nos faça respirar outros sóis. 

Recomendação

Pacificar a atitude revolucionando a percepção é canalizar intensidades no poder da criação. Aprende a respeitar tuas virtudes através do perdão de teus vícios. Faz mais silêncios e, ao mesmo tempo, canta. Espanta os males quando quiser, pois tens os instrumentos precisos: palavras para desenho, cultivo, catarse e dança. Criança-se para além de todas as formas, na ilogicidade de ser livre. Vai! Vem! Inventa arco-íris na fonte de água inesgotável e mata a sede dessa gente inteira que e habita há mais de século. Oferece esse ósculo aos pés da terra, quebra pedreira no peito, rasga o vento num sorriso liso de linho cru. Agradece. Faz prece a quem avoa mais cedo. Acorda com os galos ao menos uma vez. Nem que seja pelo viés do sonho. Sente o cheiro do café, lembra da nossa história preta, chega de lorota ou roupa rota, lota esse lar de ancestrais e, enfim, te apresenta!

Introsperspectivas

Sou uma viajante e em mim navego, por terra ou ar, forjada à fogo e água. Todos os dias, ressignifico alguma falha nova dentro do espelho. Os acertos também me fazem mergulhar, revisitando feridas à bile cicatrizada. Um nado borboleta para a boca do estômago faz ainda arder esse medo. A cabeça traça planos sobre a incerteza, cartografa a próxima parada quando tudo voltar a andar. É segredo. Nosso futuro cadeirante se utiliza de outros sentidos sentados para não cansar a memória. Dormente, ficará para a história essa necessidade de nos recolher. Uma terceira guerra mundial sem toque. Estaríamos menos perversos que antes? Quem saberá de nós senão um timoneiro perdido em alto mar? Que ventos nos soprarão as velas sem que as luzes se apaguem sobre a mesa do jantar? Há muita fome de viver sem perceber o jejum de tantos outros. Não se engolem mais antropofagismos fajutos nem paisagens forçadas. Existir requer se devorar por inteiro até digerirmos melhor o que temos consumido. Temos forçado ausências para que a natureza se regenere e, em consequência, nos desplastifique enquanto seres de carne. Explosivos. Sociopatas. Racistas. Politicamente insurretos. Todos carcereiros desse mundo de provas e expiações, religiosamente temerários. Por isso, conheça-te a ti mesmo, a esmo, sem rebanhos, com quantos banhos forem necessários. Até limpar nossa culpa feito suástica incrustada na testa desde o primeiro choro deslavado à pia batismal.

Alma de gente escrota não encaixa
É pesada, esfumaça escuridão
Carrega um coração de carburador queimado
querendo suicidar suas presas enclausuradas numa garagem.

Alma de gente escrota não tem perdão
Diz-se da religião e, por isso, aliena
com seus poderes contados à dízimo
Seres de mau gosto, dignos de pena
Dizimam todo e qualquer poema.

Alma de gente escrota quer dar ordem
Exigindo dos outros o que não tem
Carrega a faixa presidencial por erro crasso,
descaso com o próprio povo tão refém
Sem noção, sem nação, puro ego adoecido.

Alma de gente escrota é natimorta
Bate à porta, mas não entra
Quer saltar janela e enguiça a paisagem
Troncha por sua beleza branca
botando banca pelo complexo de patrão.

Alma de gente escrota atrai multidão
com seu canto de sereia, areia movediça
onde ninguém sabe onde pisa e arqueia
Só não cai, porque o santo avisa
E com ela não bate, ah, não bate não!

Alma de gente escrota é fake
Nunca leu William Blake e se acha brilhante
Alma de gente escrota é presa em fita crepe
ao corpo, fingindo conter só diamante
Alma de gente escrota nem é gente!

Toda hora, alguma coisa vem morar dentro da gente: uma espera, um espanto, uma cagada de pombo bem alimentado pela ingenuidade a proliferar doenças, um buquê de estrelas, menino chorando, fome, embriaguez, cheiro de ralo durante o beijo, delírio preso a um estacionamento-fantasma, talo sem rosa e verde-garrafas.

Toda demora cria no olhar uma distração diferente: com beleza, ansiedade, telas sobrepostas, luzes hipnóticas, munhecas doloridas, adiamento de planos, jogos de xadrez, postura adormecida sobre um banco rijo de praça, filho, leituras, fresta para um parque, nuvens estratiformes e vidros estilhaçados.

Todo esquecimento acaba por ser autodevorado: por uma paleta de cores, cachorros, neurônios reformados, paisagens aleatórias na ida e volta do trabalho, outros sexos exalando vontade, novas compras para uma única solidão, práticas de incredulidade, feridas, Brasil, Alzheimer.

Todo descanso quer perpetuar alguma morte: por fragilidade dos joelhos, pelo avanço da idade, o sinal fechado, pausas para se viver mais, altos hiatos de equilíbrio, apesar dos pensamentos, no canto, sem santo que não seja de barro, com a boca em silêncio e os remédios amargos, com alguns sonhos presos à memória, história sempre a se fragmentar por registros descuidados, capazes de derrubar uma câmera para ter sobre o que calar.

Desgoverno

Queimaram os livros e as bruxas
todas pretas, sobrescritas
pelas pirocas murchas
disfarçadas de fuzil
no país do golden shower
onde gringos dançam com dedinhos para o ar
enquanto presidente faz arminha pró-nazismo
apontando contra a massa popular
desculturando o sonho da causa própria
com uma corja de mil faces a pensar que manda
disfarçada pela santidade em branca tez
de realeza ameaçada pela afroencataria
– arte maldita, feminista e decadente
que deixou de alarmar pela cota de sangue quente
derramado todos os dias sobre as páginas dos jornais
onde as carrancas dos boçais se proliferam
ao copiar o cúmulo dos discursos hitleristas.

“Quando eu morrer, Dublim estará escrito em meu coração”. James Joyce

Num dia como hoje (13 de janeiro, 1941), morria James Joyce aos 58 anos, na Suíça. Este autor, que também viveu boa parte da sua experiência na Terra como expatriado, fez-me questionar se chegaria à mesma idade inteira, por tamanha impaciência com o curso tomado pela vida humana, caolha pelos erros recorrentes de leitura e mal-falada por uma porção de imbecis mais competentes.

Felizmente, um bocado de nonsense verborrágico ainda disfarça o caráter genial de suas obras, cujas histórias pavimentadas com cenários dublinenses servem de guia para não me perder entre veredas estrangeiras. Mesmo na falta de cognição para mapas, permeada por referências das belas-letras às marginálias, decido abrir meu livro ao mundo. Tão quebrada quanto guarda-chuva em tempestade de cinco minutos ou tão protegida quanto traseiro de bêbado adormecido em assento de trem por longas horas. Não tememos perder a próxima parada.

Embora eu não tenha logrado tanto tempo fora de meu país natal como Joyce, ainda assim carrego o peso da identificação maior com a Irlanda do que com este Brasil medievo, cuja proporção oceânica me fez desenvolver o trauma de nunca ter aprendido a nadar. Reza a lenda que, enquanto lá se vive, fica-se a boiar, esperando sempre por um farol, um mito, uma rajada de vento na baforada de um santo, um cão-guia, qualquer coisa que nos faça atravessar este momento distópico como se não detivéssemos a própria maestria. Até quem se põe contra a maré carece de remos firmes o suficiente para a persistência na luta. Macunaíma mandou lembranças! Tenho lamentado tanto a falta de memória da minha gente que, por vezes, me coloco no lugar da filha de um pai com Alzheimer, tendo que explicar repetidas vezes o que ocorre, na esperança de enfim ser compreendida.

Saudade? Dizem que não se deve desdenhar das ancestralidades, por isso, tento acreditar em encarnações passadas. Sinto uma atração inexplicável pelas terras celtas desde a infância, quando ousava questionar sobre como uma ilha tão miúda poderia ser fértil assim em cultura, musicalidade e poesia. Ora, é justamente pela origem famélica que uma identidade subsiste, apesar de todas as restrições colonizantes. Ao produzir sua arte em larga escala, seja por catarse na hora da dor ou puro dom de alma, Éire se faz guerreira, uma deusa gaélica inaudita.

Bendita, também, é a luz do meu Ceará, assim como a de todo o Nordeste, cuja bravura associo muito à intrepidez da Irlanda, embora a beleza do meu mar percorra um solo mais agreste. Nasci em Fortaleza, capital que carrega à raiz do nome uma grande verdade, a qual Euclides da Cunha, em Os Sertões, sua epopeia de língua portuguesa, bem escreve: “O sertanejo é, antes de tudo, um forte”. Haja Vida e Morte Severina para traduzir a imagem de um retirante. São muitas bagagens que devemos largar de mão sem, ao mesmo tempo, nos desprender, prestando muita atenção em todas elas.

Andamos sem tempo. Mas que deus teria coração a ponto de escrever a bíblia em menos de 24 horas? Homero? Não. O homem é tão carente de macrocosmos que se ilude com a impossibilidade de criar maravilhas em pormenores. Menos Leopold Bloom, destinado à tragédia de ser um Ulisses moderno. Há quem maneje bem os fluxos de consciência e não permita iniciantes na sua Literatura. E é justo nela que aprendi a mergulhar mais a fundo, sem que o frio lá fora me fustigue a pele clara carregada de sangue preto, latino, indígena, alienígena de qualquer definição que me caiba. Estou fora.

Mise-en-scène

O mundo é teatro e a Terra plana
rodopia pela náusea da performance
até cair em si, nua, sem asas
persona montada
ao cavalo que usa chifre como adereço
unicórnio à espera de confetes
pintando o sete para fingir-se arco-íris
enquanto o pote de ouro se dilui em Midas
água corrente de idas desgastadas
ao mesmo local, batendo as teclas falhas
cheias de farelos em 280 caracteres, indo às favas
rindo aos cântaros debulhados em lágrimas
tragiComic-Con que adoece
pela bebida, pela prece, pela pressa do vômito no colarinho do pastor
como se um passarinho cagasse assim a esmo
esmiuçando pães à praça das lamentações
depois de um Carnaval meio parecido com o do ano passado
só para não passar em branco os próximos
confundidos com um Réveillon de praia
a maior lixarada nas notícias de sempre do jornal

Calendário

Quem se é na intimidade do lar, arrancadas as caras que nos olham dia a dia, entre as ranhuras da parede, sob os tapetes pisados?
O que enfiamos no pé para nem ter de caminhar, sobre as nuvens de um passo em falso ou descendo a ladeira, assim mesmo no raso?
Santo ajuda anjo que desaprende a flutuar. Reza a lenda.

Qual conforto o seu corpo habita até que a rotina alcance outras pegadas?
Quando entenderá a textura da pele costurada à roupa em atrito com o perispírito, os pelos e os poros, todos boquiabertos a qualquer sexto sentido em quatro cantos? (1. Canto de quarto. 2. Canto de sereia. 3. Canto de unha. 4. Canto de olho). Esquadros de memória.

Quem nunca se esqueceu dos meados dessa história ou fez promessa enquanto o travesseiro adormeceu a consciência falha? Haja listas para se arriscar a cumprir (5. Largar a tralha. 6. Trabalhar)!

Quantos dias mais custarão este ano bissexto todo até que se cumpra o que foi postergado ou avante sem escusas ao que já se cumpre por dentro – feito calças que vestem as lonjuras das pernas em eternas andanças por cá e lá?

transição

envio reza brava à quem se faz de leve
boneca de neve em chamas, ateio fogo ao brando
ateia? a única corrente em que acredito é na minha conta
que não é da sua, mas boto fé
arrancando olhos gordos com os pés
de galinha adquiridos pela vida pós-30 irremediável
cara de quem nunca pagou um dízimo nem jogou arroz
vai ver era águia mesmo, por tantas rabujas
cheia de náuseas e olheiras trocando fardos
pondo ovos de tanto o frio apertar as entranhas
feito farpas que o passado atravessou às costas
coisas estranhas me escoam pelos ralos
entre mijos e talos cheios de sangue
arregalam os ouvidos
rasgam vísceras até encontrar uma barriga-cabeça menos oca
onde me caibam todos os sonhos explosivos
cuja alma se vê forjada à lida diária com o inominável
analfabeto deus, vesgo herói, mito que mata
enquanto morremos de pé, atados à cruz
atacados com os aplausos de nossos inimigos

Pirralha

Puseram-me neste retrato no início dos anos 2000, recém-ingressa na faculdade de Letras da UECE e tentando me abrir para outros mundos. Acho que estava na Ponte Metálica, em Fortaleza, quando ainda tinha alguma estrutura – tanto de ferro quanto psicológica. Ali, eu tentava me inserir nas turmas, enquanto me envolvia com a Praia de Iracema e a boemia.

Sinto falta do cheiro da cidade afogado em frutos do mar, cachorros vira-lata e melodias de pífano. Eram tantas vozes ao mesmo tempo, que às vezes me fazia de muda para processar informação. Constantemente, eu me frustrava com a nossa inabilidade humana e, como que para compensar a pseudo falta de expressão, caldalosamente escrevia. Recortava, colava, desenhava, cantava e preenchia todos os espaços indefinidos da minha amada solitude. Nunca me senti de lá nem de cá, daí fui de Camus a Sartre para entender essa síndrome de estrangeiro. Meus extremos foram luxúria e espiritualidade, paixões de jovem Werther e A Voz do Silêncio.

Minha memória quase não existe, por isso anoto sonhos, rabisco quimeras. Foi meu pai quem enviou esta foto pelo WhatsApp dia desses, ele que sempre me presenteia com a parte boa do nosso passado. Dali, eu me pus a sentir um tanto do que era e de quantas eras já caminhei até aqui. Amadureci. Deixei de saborear certas angústias impostas a fim de degustar da oferenda que eu mesma dediquei a mim. Mas decidi: só volto para o mar se for para acabar de velejar o mundo. E antes que ele acabe com a gente.

Posso dizer que já muito vivi. Recordo de todos os meus planos. Nenhum desfeito. Haja hora de criar novos jeitos, preparando-me para vertigens vindouras. A náusea, hoje, continua a provocar estranhamentos. Sigo curiosa feito uma menina, porém menos surpresa diante da insanidade cometida todos os dias, para o bem ou para o mal. Mas no final a gente vence, por mais que percamos.

Esse timoneiro é só meu, atravessando o vento. Meu relento já tem casa própria. E tu, também foi buscar o que é teu? Caminha. Porque os pés que se plantam em terreno infértil só serão capazes de voar pela contramão. Faz da percepção um projétil que não mata, só mira. Qualquer dia, a gente se acerta!

MATERIAIS DE CRIAÇÃO

À mão, nem sempre,
Embora insistentemente à fiel espera de nós
Tal um cachorro indomado
Que, se mal alimentado,
Vai nos corroendo os ossos
Assim, por dentro de quimeras
Faminto do inominável
Carente de uma alma
A procurar seu dono
Um si mesmo, tantas vezes levado por circunstâncias e peles outras
E esse cão, quando não vai à caça, é porque se cansa
Só amansa a sua natureza brava
Porque crê não valer a pena o rabo de olho dos outros ou o rabo desses loucos entre as pernas
Presas de eternas buscas, uivos ao pé da lua tão cheia de fases
Ases de Copas ou Paus, Ouros e Espadas, cartas marcadas sem qualquer noção de Tao no caminho
Existe o Tarô e tantos outros oráculos que nunca andam sozinhos
Porque não há cálculos para medir transcendências, apenas estereótipos e Cismas da demora
E esses prismas nos matam dia a dia, pondo hora sobre hora, como se tempo fosse uma parcela do nosso próprio lixo Orgânico amontoado
Já quase extinto
Sinto o cheiro
Pela narina canina da constatação

OUTLET

Paola Benevides

Um carrinho de supermercado largado à uma rua sem saída, desconsumido, descomprado, entregue a sol e chuva sobre uma calçada pós-apocalíptica qualquer, à espera de muitos nadas. Despreocupado com a ferrugem que o passar dos dias o aguarda e também o revela, tão impermanente quanto nós entre a peculiaridade de suas grades. Ao menos estava vazio de toda a comoção que presentes de fim de ano são capazes de proporcionar por um tempo, até bater a ressaca existencial em quem os consome, tapando a solidão com litros míseros ou camadas de ocasião. Até chegar o dia em que um menino vadio deitará de barriga nesse container de ferros mágico e o invisível o empurrará a favor do vento, fazendo voar um Superhomem genuinamente feliz, incapaz de se importar com a cara de peru assado dos passantes em climão natalino, descendo a ladeira no desalinho da boniteza geringonça de apenas ser o que é.

PARA QUÊ NOMES?

Mudar de casa é a troca de peles que toda cobra criada deveria experimentar, não importando quantas vezes sejam necessárias, sempre mais por si do que pelos outros, até compreender que é no próprio corpo que se sente um lar propriamente, ainda que temporário, sob outras tantas camadas terrestres.

Mudar de país, então, é como renovar a reserva antiofídica em favor de nossa saúde em vários níveis, especialmente quando a camada de ozônio é abafada pela massa cinzenta defasada de um povo. Por vezes, sob condições adversas, um neurônio se sobressai mais que os outros, em defesa diplomática do território conquistado a duras penas; outras vezes, está prestes a dar o bote na glândula pineal calcificada pelo instinto primevo da caça, por sobrevivência ou automaternidade.

Autogestar-se me soa mais altruísta quando percebo o tamanho da dívida de quem nos deu à luz – pois haverá também de nos dar asas algum dia. Tudo isso para não sermos a extensão de egos tentando projetar sonhos inalcançáveis dentro de placentas programadas para dançar balé ou jogar futebol. Esses clichés familiares que já nasceram incapazes de desatar nós ouroboreais. Descrição forjada para ocultar a ridícula cena de um cachorro correndo atrás do próprio rabo, lambendo feridas entre fezes endurecidas ou arrastando a bunda no chão, feito inábil criança a ser limpa de sua espontaneidade, cheia de vermes impostos por incapacidade alheia.

E num desses dias de folga, concebidos justamente para não se fazer nada, culpei-me inconscientemente por improdutividade, por dever aproveitar as horas com algo a contribuir para o mundo. Talvez porque um desses novos amigos que a gente faz quando viaja e acaba por nunca mais encontrar entre os rumos da vida me falou entusiasticamente: – você deveria meter mais a cara no mundo! – Como se o mundo inteiro já não me habitasse. Senti-me cobrada por mim mesma, achando interessantes as leituras daqueles que nos atravessam ou nos querem de algum modo atravessar.

Foi aí que, com certa preguiça invernal de mulher pós-trinta, expliquei-lhe um pouco do quanto já havia atingido em produção artístico-acadêmico-literária, entre esses títulos enfeitados de máscaras sociais para agradar a tanta gente. Agora, ando cuidando da minha autogestação de outras maneiras, sem me revelar tanto, saboreando de algum silêncio mais consistente que qualquer ânsia por palavras. Dei de consertar a escrita dos outros por certa compaixão, confesso, para além de mero ofício linguístico, missão espiritual, que seja.

Isso de migrar me lembra muito a sensação de começar um relacionamento e ter de endereçar o que a gente foi ou era até aqui. Aí me enrolo toda feito jararaca cansada, trocando pés pelas mãos, feito o cão-ouroboros instalado em minha mente. O fato é que algumas referências se vão, por você se arrancar de um contexto para outro. As tramas do passado vão ficando mais frouxas, uma arcada de dentes sem aquelas histórias para relembrar através da boca de uma amizade. Tudo porque você é outro alguém, com outros alguéns envolvidos numa nova espiral cotidiana.

Nessa teia de renascimentos tão inconstante, gostaria de vir com um implante na testa para todos, especialmente eu mesma, lembrarem que diabos de mulher eu sou, sem me precisar o tempo todo ser apresentada. Para que nomes?

Barras de Acesso

À toda placa de proibido, o sentido é único.
Segui-lo, trágico.
Só se torna vândalo proscrito enquanto não houver passagem.
Recorre-se à vertigem,
às pelicas em luva para tapas
De cetim de seda pura,
das agruras aos chás de quebra-pedra,
da paisagem celestial à clivagem dos muros de Berlim.

Por isso, o pixo,
sempre um rastro deixado a favor de outrossim,
o mastro erguido em prol de uma causa que,
geralmente, nem faz tremular a nossa.
Não por todo tempo.
Assim, vamos ao corpo e para além dele,
a passo gordo ou magro,
macho ou fêmeo,
de gênero selvático.
Os gênios já seguirão esvaziados,
sem fim, saem do meio.
Bilhetes comprados.
Qual seria o caminho para a transcendência?

desescritura

A escrita nunca me abandonou, embora eu a tenha largado incontáveis vezes. Tudo para me perder em novas palavras, outros vocábulos que mais me traem do que traduzem, simplesmente por não caber uma existência em longas-curtas sentenças. Sem fim. Maquinadas. À mão. Memória. Não tenho mais saída, se o que entra em meus olhos abre também em mim portão. Partidas ou chegadas. Dobras no tempo. Nascimentado à carcaça que brinca de ilusão para ilustres visitas. Quem lê pensa que sabe, mas apenas reescreve sobre um borrão de ideias o que mal cabe em si. Que dirá do outro. Papel amassado. A história impublicável é quase sempre a mais memorável. Incerta. Presa à boca ou arrancada pela goela acima. O que importa? Vaidade não perdura do lado de baixo. Vale o ócio da criação. Dá a vida quem também descansa, sem dever nem cumprir. Por fazer. Prazer que passa feito pluma em vento. Os eventos saem caros. Raros são os que insistem. Mesmo assim, eu me arrisco, povoo cadernos, resido em computadores por serem destruídos e máquinas de escrever emperradas pelo peso das horas. O corpo também pode ser um livro, armazenando impressões analógicas. Abstrai-se demais pelo outro, afora, no desespero angustiado pela expressão. Publicam-se poemas como quem bebe cafés. Coaram o amargo que dá acidez para aguar um doce que a mim não serve de nada. Apago rastros. Subtraio aparências. Aprendiz de rasuras, borrachas gastas, canetas falhando. Bloco de notas para esquecer na manhã seguinte. Sem requinte. Meus chistes são chicos em letras minúsculas. Semianalfa. Beta. Gama. Tetragrammaton. Medito. Espero a inspiração passar, daí então existo. Oxalá aprendesse a cantar. Quem me dera desviar das audiências falsas. Asas se irromperiam do ego, do mal gosto, à contra-vontade de tudo aquilo que esperam de mim. E, enfim, descansaria. Velha. Fumando cachimbo feito de folhas eruditas e queimando incensos para entidades invisíveis que me ensinaram a ler no escuro. Nua, inteiramente incompleta, feito as voltas que a mãe-Terra-de-ninguém nem dá.

com farofa

Morre-se mais que se mata? A errata de existir se adapta ao calibre da história. Ou gente é feito barata, proliferada pelo parto planejado por um acidente? E se já formos todos anjos encarnados, condenados às novas tendências? Canibais vegetarianos, preenchendo o vazio dos apartamentos com plantas carnívoras, descabidos em si. Cerebrais de alma carcomida reptiliando por aí. Animais abatidos, metidos à besta quadrada em um planeta povoado por terraplanistas. Quem se quer aqui agora em osso e carne, mal sabe do dia de amanhã. Febre terçã. Mas rezam alto o terço pesado para os outros, fazem correntes, presos a promessas, em seus passos arrastados. Quem se libertou? Poros abertos para cada chakra bloqueado pelo sistema que não aprendeu a lidar com as células mortas. Produção massiva de loções antirrealidade. Posições de instayoga. Relações liquefeitas no clichê pop de filósofos, homens-santos pegos com a boca na butija. Esquizofrenesi diluído a necropolíticas. Pobres ilusões. Esvaziamento de ego requer respirar fundo antes que desmatem todas as estratégias. É um processo cansativo, muito pelo peso das máscaras suspensas às bochechas caídas e às bundas flácidas. A dança das cadeiras virou brincadeira antiga para quem fica esperando a morte chegar. Roleta-Russa. Nem que a vaca tussa essa existência vai acordar a tempo de perceber as próprias cagadas, ensacadas pelo mesmo plástico que asfixiou os peixes. Quem se deu conta, já virou adubo, evoluiu em árvore recém-descoberta. Eva, Adão e maçã da eureka na cabeça: tarde demais! Tarde demais!

cagando e andando

Tal vaquinha mansa que se alimenta do próprio pasto
Eu cago e ando, eu cago e ando
Nem piso a grama verde do vizinho
Eu cago e ando, eu cago e ando
Feito afoita criança aos trupicos, de joelhos ralados
Eu cago e ando, eu cago e ando
Velhinha sábia no mato, desvestida de fraldas

Acontece que não ligo para faros errados
Eu cago e ando, andando eu cago
Nem dou a mínima para os preocupados
Eu cago e ando, andando eu cago
A quem se afunda em rastros alheios
Eu cago e ando, andando eu cago
Feito princesinha cheirando à lavanda

desaparência

quando há demasiada distância na presença
algum sinal de nascença mal chega e já se afasta
ausências se cumprimentam em vagas lembranças
e digladiam sonhos por resgate do que inflama ainda
dentro de ringues cósmicos do que fingimos não saber
outras existências, seres feitos de não-ser
anhelos separáveis de tantas histórias à página solta
que se cruzam pelas esquinas desse muro vasto
presas por arames farpados em contatos de evitamento
desvio revirado de olhares ou sorrisos que se arrastam
em falares de raras escutas por ansiarem outros mundos
fundos por dentro e também meio ocos
caixões para guardar detritos ósseos
feito molduras do acaso ou vaso remendado com ouro
o couro das nossas bolsas sanguíneas segura rédeas
a fuga dos cavalos faz alongar as crinas
contra o vento ou a favor, em tranças
desfeitas

SORORIDADE

Senti tanta pena daquela menina, que poderia tê-la acolhido dentro de um abraço telepático, fornecedor de um banco de dados ancestral para autoproteção e sustento próprio. Mas a gente percebe quem realmente está disposto à acolhida do aprendizado e quem se entreabre apenas para ser aceito às prateleiras da validação, expondo sua birra verborrágica, sem admitir a possibilidade da rejeição.

Felizmente, ouvi a experiência da minha intuição dizer em tempo hábil: deixa ela encontrar a própria alma, mesmo que reverencie o outro por um tempo, reduzindo seu brilho, sem enxergar a grandeza dentro de si mesma. Cada qual com o seu processo, no acesso ao que pode ver, pelo apelo das carências, entre frequências semelhantes, por achar que não tem competência de ser para si.

Ou mesmo ler, se não um livro novo, uma negra velha ou uma árvore em extinção. Ficar em silêncio por algumas horas para perceber que também pode haver amor na falta, que é melhor mesmo não precisar conviver com quem lhe faz mal, por mais que traga uma migalha de afeto ao ego torto. No mais profundo entendimento das ausências é que se completa esta equação. Contemplação direta da nossa incompletude. Quanto mais humana, mais falha. Solitude nos regenera.

Ao final, as leis da vida fluirão abundantemente aos que não forçam barras pesadas, não ficam agarrados às saias da submissão, nem necessitam da mais-valia social nestes tempos de razão tão rasa. Muitos renunciam a intelectualidade para tentarem se apropriar belicamente de nossas conquistas, violando sonhos através de um conservadorismo embotado, pouco detentor também da sabedoria dos simples de coração.

E essa menina, que nem mais menina é, bem que poderia compreender do quanto é capaz, sem a necessidade de vínculos confusos ou reedições censuradas da sua mais sincera expressão. Feminina, feminista e sábia, como todas nós, das avós do Japão às crianças da Arábia.

FOREVER YOUNG

Horas antes de saber do teu desencarne, já me sentia sendo preparada para um choque. Meio amolecida no corpo, à espera de um novo ciclo a devorar minhas entranhas, estremeci com essa surpresa ridícula de domingo, que me fez arrepiar os braços e a nuca. Gritei comigo mesma, horrorizada, tentando processar todas as fotos postadas em homenagem a ti, desaguando a confusão em choro. Tentei focar na luz do nosso Shanti Shanti Om, mas resolvi abrir uma cerveja em tua homenagem na varanda. Dediquei uns goles pro santo. Ritual bem simples. Era disso que o nosso espírito precisava para processar o quão cafona anda a vida e o quanto o Brasil tem adoecido nossas potências, matando gente querida das formas mais equivocadas…

Ok, sem despejos de culpa nem revoltas ao acaso (se bem que quase nunca são em vão). O que parece injusto nesse plano deve ser apenas mais um passo para nossa evolução dolorida. 49 anos de beleza intacta, filhos saudáveis e brilhantes, obra incansável… Acho que rolou esperteza nessa tua vaidade. Quem quer morrer velha enrugada? Qualquer uma poderia, bruxa cansada. Mas tu?! Jamais admitiria. Também, não sei se foi melhor agora. Nunca é… Prestes a estrear uma peça cheia de nudez e proeza feminina, mais e mais escrita. Tanto a fazer, bordar, pintar, lançar. Tantas ânsias por expressividade… Tudo é tão familiar entre nós que me assusto.

Hare, Young! Tinhas de partir assim tão jovem mesmo?
Hare, Young! Agradeço a inspiração de ser para continuar a escrever como forma de respiro neste mundo de banalidades tão claustrofóbicas.

Sou grata também por tua coragem de ser pós-F. Eterna. Eternizada. Shakti abençoada pelas deusas, cheia de Amor, Fé e Gratidão. Será sempre um prazer ler a carne tatuada do teu espírito, fazer-te canção e desejo nesse entremeio de silêncios e descanso. Dance um samba rock com Shiva, na criatividade de teus tantos braços. Daqui a pouquinho nos reconheceremos, reverenciando nossas presenças mutantes. Feliz aniversário para sempre!

Imagem: verso de A Lente do Amor, poema de Fernanda Young.

“ELEVATE”

Numa placa na fachada daquela casa irlandesa estava escrito “Elevar”: uma mensagem subliminar em tempos de convite contínuo à queda energética. Poderia ser apenas mais uma porta fechada, mas era rosa-flamingo. Estimulante “la vie en rose” da atenção intuída. Aberto o cortinado das sinapses, compreende-se que também estamos mais presentes naquilo que enxergamos de mente tranquila. Se alguns sonham em cores, outros não, e está tudo bem. Já somos privilegiados demais pelas diferenças.

Contudo, quando se cresce em ambientes tóxicos, é comum que ares monóxidos queiram se instalar em nossos pulmões amazônicos, matando-nos aos poucos, por vezes, inconscientemente. O sistema não se responsabiliza pelos suicidas em potencial, por isso explora. Mesmo que mudemos de casa ou saiamos debaixo das asas atrofiadas de confusas companhias, podemos levar certo tempo até nos adaptarmos às altitudes escolhidas. Torna-se mais fácil respirar quando honramos o passado e nos despedimos dos enlaces cármicos com profunda gratidão. Sem apego ou modismos. É quando o mundo inteiro desacredita nossos reais valores que, então, rumamos ao encontro de nós mesmos.

Novas relações, proporções de entendimento e sintonias mais afinadas com o propósito de vida farão valer a jornada. No cair em si, levitamos. Longe do medo desse abismo que carcomerá a nossa carne (como alguns de nós fazemos com os animais), porque desse destino já sabemos, mas perto de reflorestar um imenso deserto na coragem de semear onde se dá fruto. Futuro haverá enquanto soubermos exatamente o que já estamos fazendo de nós. Homo sapiens sapiens.

Por quanto tempo ainda, enquanto não tivermos os relógios parados, preservaremos as nossas próprias engrenagens? Estamos só de passagem, mas a paisagem será herdada pela própria extensão de nós. Tratemo-nos bem, pois somos todos um, para além das desconexões tamanhas. A distância nos ensina, assim como bater à porta do vizinho em caso de incêndio vai além da boa educação. É ação cosmoética, ecologia cotidiana.

Lamentar depois não adianta. Para plantar, há de se pensar também em regar a planta. Tudo é processo e exige paciência, bom adubo, tubulações recicláveis para nossas fezes despejadas até no espaço. Assim, pari passu, veremos que toda essa essência a circundar o universo é a nossa real família. Ilha é o que não somos.

MORADIA

Em quantas janelas 
irá se recostar a espera?
Em quantas memórias 
habitará o segredo das demoras?
Em quantas casas 
viverá até que o teto desmorone?
Por um ciclone, um gato pesado, um medo
Por nada que nos surpreenda
De novo
Um ovo frito no pão 
A mão ao cabo da vassoura
Quintal cheio de folhas amarelas
Sem o passado que condena
Qualquer presença de agora
Cedo ou tarde
Abrigará por sobre a mesa
Um farelo de nossas histórias 

ANTEPASTO

Engoliu o Amor
Polpa de fruta vermelha sedosa
Veludo em flor
Acarinhando do esôfago
Às trompas de falópio

Maciez escoada em óleo de rícino
Auréola e bico de peito na boca do neném
Além de si, descida adentro
Olhos fechados

Quem falou do ódio
Não convenceu a verdade
Desconheceu o toque
Matou a fluência
Fiando nós à garganta
Dos gatos

Deglutiu a vida
Com tamanha facilidade
Aquele que sonhou
Sem dormir ao ópio
Do próprio relento

Acalentou-se e calou
Todas as vozes contrárias
Em seus átrios
Mastigando sem esforços

Digeriu até os caroços
De fazer brotar braços e pernas
Entrelaçados em acenos
E caminhares livres



Coroada

Quero-me assim, cada vez mais cercada de flores.

E não importa a ordem do tempo, que venta para cada vez mais longe essa ilusória linearidade. Ora quer-se fim, ora início novo. Tudo é finitude enquanto a idade fragiliza. Tudo é coragem quando se renasce de outras fontes. Se ontem fui semente, amanhã serei orquídea. Se hoje planto árvore, o porvir se regenerará noutra paisagem viva. Nem me põe calada o corpo morto um dia, certa de que mais uma carne pulsante assumirá este lugar de fala em poesia.

Sismo de Lisboa

durante a velhice, 
as cidades são mais vivas 
pulsam dentro das paredes feridas
carbônico e mofo
umidade e picho
tudo é bicho engalfinhado à conversa das Marias
fado com vinho a portas fechadas
fachadas inteiras de azulejos por serem violadas 
pela curiosidade mórbida dos vizinhos.

Arquitetônica

Haverá qualquer dureza que nos habite capaz de soerguer ou edificar? De que materiais nos utilizaremos para construir nova morada a partir de se quebrar? Tijolos dependem de músculos em cooperação para aplicar a engenharia desse constante planejamento. Entre guerras, desmoronamentos, cidades fantasmas e apartamentos. Não haveria um quarto, uma sala, uma família sem a noção circular de um quadrado. Não existiria cômodo algum se vivêssemos acomodados sem fazer uso de tantas engrenagens devidamente lubrificadas. Nem visitaríamos abrigos, cabanas, reentrâncias chamadas de lar. Jamais nos recolheríamos na privacidade possível. Viveríamos a céu aberto esperando a chuva passar e o sol se assentar por conta própria. Porém, graças à evolução mínima dos tempos, compreendemos do quanto somos capazes, audazes, gigantes e titãs, sem mesmo precisarmos saber da existência desses deuses, usurpadores de nossas próprias potências.

Traduzida em Clarice

Por contradição consciente, prefiro assumir a Legião Estrangeira que habita dentro de nós. Serei gringa aonde quer que vá. A depender do olhar, das lentes que se atrevem a fazer contato. Desterritorializada. Realocada. Entregue ao sangue que corre miscigenado, contaminado por culturas que se atravessam tanto. Minha morada é a linguagem. Se me traduzo, traio a mim mesma, desaforadamente. Ciente das perdas. Mas, ainda mais, dos fragmentos que tanto me espetam e sangram, como prova de vida a se expandir, a afetar, feito um Coração Selvagem em seu eterno “trottoir”.

MINGUANTE

Tenho me resguardado como quem gesta a si própria, semeando a seiva em mênstruos até os próximos ciclos, em recriação constante. Embora eu continue a mesma de vidas atrás, há algo que me envelhece. E envelhecer não significa que amadureça de todo, sempre. Não que eu note direito.

Essa crueza de existir me transformou numa criança ranzinza, numa menina que sorri sem dentes e segura firme sua bengala-móbile, com cabelos brancos de maria-chiquinha. Engraçado quando duas extremidades se encontram: uma mão enrugada enlaçando-se à suavidade da outra, ambas protegidas por algum elemento que sobra ou falta. Como nas fases da lua, da cheia à minguante.

Sou duas mulheres completas no meio-termo de ser. E a ideia do parto me reparte bem mais por saber das fragilidades e potências envolvidas. Por esta razão, ao invés de trançar as informações desse DNA tão confuso num cordão umbilical, acho mais sustentável para o mundo não gerar um feto. Afetos outros e tão vastos quanto existem. Pode crer.

Já dou tanto trabalho amontoando desejos e dejetos, que meu ego rejeita qualquer extensão embrionária de mim. Entendo, ainda, que se trate da quase ou mais completa anula… abnegação, digo; e que se pintem estereótipos maternos da perfeição ao narcisismo, porém nunca deixei a sociedade em seus decretos generais me converterem em santa madre nesse sacrifício, por vezes, tão irresponsável e imprevisível.

O corpo, este sim, é meu templo particular, que obedece a um sistema de instintos das mais diversas deusas e comunga com a intuição branda ou bravia das marés, embriagando-se de liberdade. Está aberto em poros, pernas, bocas, olhares, tudo o que quiser em forma de criatividade imensa.

Meus filhos são e serão os livros, os sonhos, os desenhos, os retratos, os lugares por onde ainda não estive e através dos quais transcendo vívida. Minhas filhas são as versatilidades em forma de realização, amor e (an)coragem; as cores refletidas para muito além de um prisma social, belamente descansadas à sombra de uma árvore dentro de uma paisagem desconhecida, até que minha carne morta adube novas sementes e outros tipos de sol renasçam sobre a terra melhor nutrida.

Do Insustentável

Não esperarei pela morte nem pelo nascimento de ninguém para reatar elos corroídos, embora sempre me mantenha aberta a transformações constantes, a reciclagens de afetos recríprocos. O fato é que há relações impenetráveis e que devem, sim, serem mantidas à distância, considerando níveis de afinidade intelectual, afetiva, espiritual e, agora mais que sempre, de identificação política. Já somos violados demais dentro da própria vida com tantos muros à espreita, quanto mais se quisermos transparecer uma falsa generosidade pela manutenção social dos quereres alheios, das carências pouco conscientes de si. De vazio por vazio, abracemos o buraco negro recém-revelado, com seus vórtices luminosos no entorno, dentro da ciência do impossível – agora palpável.

Dessa maneira, temos de viver conforme nossos desejos, por mais absurdos que pareçam, sem que se ataquem os limites éticos, por dignidade humana mesmo, honrando todas as raças, as expressões de sexualidade, as camadas sociais, a natureza à qual não apenas fazemos parte, mas dela somos um todo. Só acho cada vez mais difícil honrar antepassados racistas, mesmo considerando suas limitações medievais ou imposições culturais avassaladoras de um patriarcado torto, europeizado e metido a rico. Isso pode doer, carcomer os pensamentos noite e dia, porque o ideário cristão nos impõe a culpa e nos quer mendigos de realidades montadas sob alicerces podres. O fato é que somos inteiros, inclusive, com todos os desafinos e imperfeições. Somos matéria-prima composta de paixões, tristeza e abandono. Haja treva para se querer ver uma luz que por si só não há. Somos contrastes. Sou também contraditória. Minha oratória insiste, mas apesar de tudo sinto. E sinto até melhor estando longe, com o coração dilacerado por tanta confusão.

Eu já senti saudade de quem me fez mal, deixei de fazer falta a quem disse me amar, faltamos com nossa palavra. Lavrei a terra de onde colho o que acho devido e quando necessário. Estudo sempre, trabalho, saio e rio. Bebo menos que antes, viajo bem mais, com parcerias escolhidas nem a dedos, mas a unhas, sem arrancar-lhes as cabeças nos dentes. Não devo a ninguém. Não temos obrigação nem prepotência de resgatar barcas furadas nesse mar tão deserticamente profundo. As almas salvas pelas mãos do invisível têm preguiça de ler as hecatombes por detrás das suas redomas de vidro benzido. Sinto que meu orgulho foi varrido desse país, que nos regurgita para fora dele em espasmos inconstantes. Nesse caso, posso ser um aborto espontâneo ou uma carta de alforria. Ainda assim, não viro-latas, abraço minhas raízes de outras maneiras, porque sempre achei que pertencesse ao mundo mesmo, estrangeira de tudo, por quase nada. Quem me dera poder acreditar no melhor sem duvidar três vezes, sempre apegada à mística que, utopicamente ou não, me leva a acreditar que voo mais alto sobre uma vassoura de bruxa em meu sonho pagão nessa pequena Irlanda, que me dá uma guarida em três anos que nunca vivi em trinta. Mas e daí, não é mesmo? Sofremos juntos. Até compreender. Em caso de nunca, vou vivendo nesse eterno diapasão de pertencer a mim mesma.

AUSCULTA ATIVA

Estude o próprio silêncio. Arcar com os contrastes de tantas vozes internas e ruídos vindos de fora pode parecer malabarismo do que já deixou de caber entre apenas dois braços. Todo perfeccnionismo deveria servir para notar e anotar o que mais enriquece, rabiscando da lista de presenças qualquer pista de desassossego por encargo ou descargo de consciência.

Um exercício de atenção plena ajuda a auscultar sem tropeçar nas palavras do outro, resguardando língua dentro da boca, em poda minuciosa dos balões de pensamento. Cada qual respira conforme a própria natureza, portanto aprenda a aguardar sua hora de falar mais relevâncias curtas que emitir sentenças fartas de certeza. Nem toda gente necessita de opinião constante ou da sua concepção de inconformidade, por exemplo. Pitacos não são petiscos para iniciar boa conversa, especialmente com a cabeça em desprezo claro às afinidades.

Ego cheio geralmente rende só papo furado. Pressa de dizer também se traduz na falta de educação, até quando se concorda. É como uma baforada de cigarro na cara do não-fumante, ou um sorriso forçado ao se querer bem aceito, faltando-se a si mesmo ao lado. Ninguém é obrigado a nada. Diálogo compreende presença sentida, um toma-lá-dá-cá preenchido por equilíbrio paciente e, embora surta efeito terapêutico, não é sempre sessão de análise, não pede aconselhamento, julgamento, nem passagem.

PATA

minha destra contém sulcos de vida
linhas mestras anciãs a sustentar bagagens
estapeia caras pálidas para acordar
aplaude os talentos da própria verve de escrita canhota
masturba o tempo enquanto acarinha amor à liberdade
amassa passados tantas vezes reescritos
para amansar o cachorro bravio da mente
toca pedra de Medusa e vira Midas
taca diamante nas vidas e tece artes
modela o barro da costela de Adão
e resgata Lilith da Eva, galinácea poética
ave de arribação sobre árvores pagãs
a parir ovo cósmico com as mãos cheias
é irmã, alquimista, reikiana e quiromante
com aperto firme antes de virar moda-gaia
deixando namastê de lado e terceiro olho de revés
por já prever quem nunca foi de sua escola
recusa esmola espiritual forjada na culpa e na dor
não cola mais nessa prova “divina” de virar a outra face
também não se vinga, apenas tatua lembretes à palma
enquanto vai ao reino dos céus e às compras
imperiosamente mortal, hoje resignada

CAMUFLAGEM

Um desenho de Sara Anstis – algo sobre manter-se protegido desse mundo falocêntrico -, lembrou-me o dilema do porco-espinho, do filósofo alemão Schopenhauer, quando inspirado por uma de suas escaladas aos 16 anos.

Fazia uma “quentura animalesca” no alto da montanha Schneekop, quando pastores embriagados se amontoavam em espaço exíguo – inspiração para a parábola (Hedgehog’s dilemma), presente na obra Parerga und Paralipomena.

Diz-se que, por causas invernais, porcos-espinhos se apertavam na tentativa de manterem o local aquecido. No entanto, pelo fato de acabarem se espetando todas as vezes, tinham de manter certa distância.

O conto, famoso também por ser citado pelo pai da psicanálise, versa sobre a necessidade de socializarmos, ao mesmo tempo em que, por várias circunstâncias traumáticas, devamos nos distanciar uns dos outros.

Por cautela ou respeito, amor próprio ou privacidade de direito, afastamento é necessidade humana para a manutenção de nossos machucados. Deve haver um limite para as feridas e experiências desconfortáveis que, nem sempre, nos fortalecem.

Conviver compulsoriamente, a meu ver, só produz mágoas. Especialmente em final de ano, quando o dano moral é causado pelo “bem” da família e da sociedade. Danem-se as peles de cordeiro dos lobos acobertados por um Deus falido. O inverno nos convida a um bom cobertor, amores reais e cama com livros. Danem-se vocês!

ORAÇÃO DA RESISTÊNCIA

Dei de misturar chá com café…
Enquanto crentes oleosos tentam untar sua fé com mágoa,
Há copos sobre a televisão e corpos negros sob tapetes persas.
Pregam-se peças caras com notícias a sangue frio
E o suor à fronte salta aos olhos, num batismo de egos

Assim, sem compactuar com a farsa de marchantes cegos,
Meto a língua no olho do próximo para ver se capturam o óbvio…
Obituários dividem a sessão com a extinção dos ministérios da consciência. Não há mistério:
Nesse jornal, todos já morreram sem saber, no poder – ainda!?

Mas nosso povo assassinado se divinifica para puxar o pé desses larápios. Criam asa, apesar de destruídas as placas com seus nomes
No Brasil, as ruas são livres só para as almas penadas
Pena de sorte será a lei do bandido formado professor

Violados em direitos, artistas defecam no Palácio do Planalto
Nem se trata de outra instalação polêmica contra esse zé povinho do bem, mas é epidêmica a diarreia
Quando muitos estão sem casa nem ar.
Obraremos, resistentes, até calarem nossas vísceras para sempre. Amém.

O CORTADOR DE GRAMA

Todo mês, vem um homem cortar grama, sentado em seu minicarro barulhento e dotado de lâminas potentes. Talvez meu sonho de infância, se criança hoje fosse, seria pilotar um aparador desses, subindo e descendo jardins quase inacabáveis, com seus muitos relevos, nessas reviravoltas.

Gosto quando vem o cheiro do mato às narinas, tão forte de fazer espirrar. O mais engraçado é quando saímos para o trabalho pela manhã e as roupas atraem poeira ao passarmos por dentro da nuvem de capim. Logo rimos do desconforto uns dos outros, ao baterem-se da blusa às calças, como quem acabou de pegar uma estradinha de terra.

Outro fenômeno que fascina o olhar da gente é sentir o verão tostar a relva pelo calor, fazendo amarelescer esse piso instantaneamente e, quase de um dia para o outro, já com a primeira chuva, tudo voltar a ficar bem verde, como se revestido por um tapete vicejante, onde o ar puro se maneja, voltando a acalmar nossa linha de respiro.

FOTOGRAFIAS

Têm sido tantas as memórias ao longo desses anos que, de quando em vez, dá um branco nostálgico e as revisito no porão da antessala de incontáveis vidas para ver o que ainda sinto. Extrair de um instante a mesma marca de afeto parece inalcançável, mas a evocação do passado ainda nos provoca, reavivando um orgulho vaidoso do que se foi e do que ainda se é: bandas de rock, palcos, saraus, escritos, artesanias boêmias, amigos. Então, eu vejo que valeram até alguns filmes queimados. Do que não se rasga ou se perde, ainda se aproveita em choro ou riso fácil. São resgates de remendos em retalhos guardados, bolores de alguns egos em brigas já esquecidas, discursos acalorados em mesas de bar, razões desarazoadas pelo furor juvenil, paixão demasiada transpassando vários corpos, ruas sem saída. Tudo isso para vislumbrar novos portais que se abriram no meio de um nada, saturado pelo cansaço de onde eu vinha, das pessoas andando morosas em círculos… Hoje, usam-se mais filtros, tanto nas fotos quanto nas seleções que a gente quer levar para o resto da vida, incluindo pessoas e mapas de fuga para o encontro com o cósmico. Globalizadamente. Foram tantos lugares, que tenho sempre um pé em mim que inflama, vira e mexe. Quer mais. Abnegado. Por vezes, nem sabe o que faz, nem por onde anda. Acho que deve ser por isso que ele tem realizado tanto, apesar de meio manco. Quem se mancou de vez é que sabe!

ÁCIDA

A escrita corrói o que pouco se entende, mas ainda assim constrói. Afinal, da ferrugem também se proliferam microorganismos capazes de romper correntes, liberando os agentes de ação dessa inércia então suposta. Por isso, o vício por ela, que não se crê tão ignorante quanto nós, falantes intermitentes de qualquer coisa-nada. Na sua lúcida acidez, tenta transcrever o som das artérias ao bombear litros de sangue, este produzido por órgãos internos doloridos por tamanha orquestração de sentimentos, da estridência das paixões aos graves tons mortais da mais barítona existência.

bueiro de parede

Azeda que dói, porque escreve com franqueza, franzindo a testa ao testar seus próprios limites. Remédio amargo que cura doença antiga. Quer-se velha, porém em pleno viço. Quer ser sumiço quando tantas presenças já não convêm. Quer um indício de pertença aos céus mais intranquilos, apenas por saber da maioria dos infernos e de seus fogos ancestrais. Estes sim produzem mais ais e infâmias, fomes insolentes, gaitadas, saliências, tragos que se afundam nas horas, um peso sobre o próprio corpo que traz tanta leveza.

Quem é a musa que distraía poetas do ostracismo e hoje acomete novos idealismos de apenas ser para si mesma? Quem, à resma farta de papel, se propõe banquetes regados a orgias transverbiais? Quem, com uma voz desse tamanho, ainda segura pena molhada ao tinteiro por sentir que contribui com a humanidade? No fundo desse ego tem sempre uma morte, assim como cada orgasmo tem seu fim, tal uma onda, no vai e vem que seca e banha a mente, enquanto salga a carne. Transparece tanto, porque não teme. Transpoétikas

Tendo-me com árvores, entendo-me com elas. Desfolhadas ou de copas cheias, é na seiva que o interior do mundo se reflete, assim como os banhos de lua das marés. Em diálogos de vento há mais dança que qualquer corpo morto, sopro de vida solta como quem vai e volta. Quando quer. Inteira aorta. Sentar na raiz para bater à porta, reclinando tronco ao tronco, nessa troca intensa e incensória entre um sim e outro ser. Ramifincar os pés é como refolhar após longa chuva.

Tantos termos em voga, tanta moda estragada. Quanta toga furada de juiz de direito com desculpa esfarrapada. Quanto empoderamento esfregado na cara do politicamente correto, armado com dedo médio na mídia social, pronto para denunciar qualquer opinião contrária. Tanto empoleiramento de caráter, tamanha a opressão. Fuga dos galinhas. Juventude sem rua nasceu para brigar do portão para dentro de casa, com suas regalias. Tem medo de largar o controle, o país, os pais, o patrão, a mulher ou o marido, porque insiste em aceitar abusos, fingindo que ama-de-todo-coração, produzindo canudos, pilhas de certificados e filhos e contas e cartões e sermões de missa hipócrita, imposta à massa submissa à eleição da televisão. Quando não há Deus, há negação. Autoria vencida de gente barbuda altamente qualificada em cometer suicídio. Que se repete na bibliografia de quem não repetiu de ano, mas nunca passou um pano no chão. Quantas falas interpenetradas haverão até se ser compreendido? Na censura, além de carreiras destruídas, haverá o perdão? Arte. Ó, a arte! Será mais bela por ser transmutada a alma do homem-lixo? Mas haverá Arte assim tão divinal ante tanta cancela fechada? Fechar as bocas de aguarrás será mais causticante que os de boca rasa? Paremos de julgar.

Dançar é meu abismo

Ao desatar os sentimentos de não-pertença, caminhamos mais livres. Pisar o cadarço na pressa de saber aonde se vai já é um primeiro passo. O tropeço firma esse propósito, desimportando o que digam os mais próximos sobre o que se pretende na vida. País, pais, paisagens de antes, tudo o que era uma constante não se deixa para trás, só ressignifica. Tudo aqui é uma inconstante, a começar pela incerteza climática. Dublin foi feita a quem aprecia ser pego de surpresa e eu me ofereço em ritual solar-invernoso, pagã dos meus pecados, evoluindo no fogo. Misto de choro e calma. Meu princípio é ativo. A alma, anciã. A gente começa a ser quando se esquece. Cresce quando se lança à música. E dançar é o meu abismo.

CATACLISMO

A raça humana ainda persiste na ilusão da separatividade, por isso mata, decompõe a natureza, vinga-se do próprio espelho e desconstrói o sentido caduco da terminologia “religião” – do latim, religare, deixando de se unificar ao próprio mestre interior, esquecendo-se de que ela é o próprio deus e não esses outros quaisquer que estão no comando, a mando de não sei quem, qual seja a entidade ou representação.

A maioria, não sendo capaz de atuar como sujeito de princípio ativo e se responsabilizar por seus atos – falhos ou não, sujeita-se a ser nada além de sombra em caverna, comidinha na mão dos patrões, eterna vítima desses ladrões de alma. Projeta-se sempre ao exterior, ao ditador, ao príncipe, ao invisível promissor, porque olhar para si do lado de dentro parece dilacerante. Miseravelmente, liga-se à prestidigitação canhestra da televisão, que veste o mau gosto, elege a tragédia preferida e induz passividade à massa anticrítica até uma completa aniquilação de sensibilidades.

Assim, frequenta a esquizofrenia desses templos vários e se fragmenta, justamente por não se apropriar da própria divindade. Quem acredita nesse deus da morbidade, nunca há de se sustentar como indivíduo. O Amor não é teatro. Portanto, abrace tudo o que é vivo enquanto há tempo, mas nada que te faça indigno, nenhuma coisa que te acomode inválido. Sentimento nunca deveria ser assassinado, em qualquer parte do mundo, porque jamais seremos uma perna extirpada se nos adequarmos ao abraço do universal. Estaticidade nunca alargará um horizonte já eclipsado. O brilho, que deveria ser próprio, reflete das telas direto para os rostos aficionados. Redes sociais. Sabemos cada vez mais de um tudo sem ainda percebermos o todo ou quão valemos aos olhos dos outros. Quem se importa?

Ser o que se é, preto, mulher, aleijado, criança, gringo, aborto ou selvagem garantirá mais coragem como reserva salvacionista nos próximos anos. Mire a verdade, mije no fuzil, não vote à cabresto, nem que seja gado. Seja grato. Tolere, repense, crie, medite. Beije a boca das borboletas, componha um novo adágio, abandone relacionamentos falidos e convicções reducionistas, pois cada caso é um caso. O prazo é curto. Destrua miragens num piscar de olhos chorosos – o colírio vira néctar quando saímos para flertar com o intraduzível.

PAOLA

ACLIMATAÇÃO

Vou rosnar para aquele furo alto e aceso lá no pretume do céu, espumando neves de rubor. Quem sabe ele não rasga a noite mais cedo e então eu possa me queimar só com o vento. Uivo de abrir cortinas, de arrepiar os que dormem, com as pontas dos medos. Todos duros. A rigidez é cadavérica para quem vive sem perigos nesse mundo. Escalarei paredes pondo os pés sobre as estrelas de vidro. Qualquer tropeço, cacos em lágrima. Rasgo o equilíbrio entre pentagramas verdes. Escorrego na chuva quando precipito. Meu precipício é a curva, não a retidão do salto. Solo arenoso para este corpo movediço. Escapo para o mais cavernoso templo, sem prece nem pressa, senão caio feito anjo à presa do inimigo. Não há vela. Portanto, sem sombras acesas nas paredes. Enxergo pelos ouvidos que irá demorar o amanhecer. Acordo mais ainda. Faço acordo com uma vontade infinda de alcançar o que se afasta de mim. Passo a nadar no impulso, já que os pulsos me cerraram às correntes. Ferrugem e tétano. Tento ter pernas ainda, mas para quê as quero? Desejo o logo, sem a lógica da espera mil horas. Carrego os ponteiros no calcanhar, poeira na sola, ampulheta solar. Escoa o tempo junto ao orvalho, baixam-se as nuvens reveladoras de horizonte. Eis que um mar escuro se afasta, as ondas abrem caminho sem correnteza, com a certeza volúvel da água. Agora meus olhos estão cheios dela. Vou parir. Vou parar de ir sem volta. A menina vai ao chão no nascer, desce das costelas da mãe até a última sorte, quando de novo cai: enfim, para outra morte eternecida. Ela então se chamaria Aurora.

IMERGÊNCIA

Não tema o mergulho,
esguicha o orgulho de lado no lago do amar.
O espelho das águas é encontro com teu próprio eu,
sem que este seja o ego sujo pelas mágoas,
cego ante os mais belos transbordamentos.
É o véu de si que se magoa fácil.
Nossa vida é água indócil.
Fluidifica, submerge, emerge e transcende.
Bebe do teu tempo que é agora!

PAOLA

ERA

Não há mal que o tempo faça senão por tua conivência. O entusiasmo, a mentira, a glória ou a violência, tudo passa. Memória é para se guardar em vidro que racha com o vento, mas dá alento enquanto dali, bem preso, não vaza. Pode demorar um ano, dez, cinquenta qualquer cicatriz, por muito que entrave quem a diz ser tão profunda. Há cura a quem não se amargue dessa vida. Há colheres de chá e de açúcar, conversas e silêncios em pitadas. Cedo ou tarde, o alarme acordará quem se arme por desespero. Na espera de tudo se acabar, acabam-se de medo.

Enquanto não vem o esquecimento, procura lembrar…

O sol é uma ficha telefônica para os que se perderam em pores-de-sol de antigamente. Completar a ligação é unir os pontos e perceber o luar do outro lado da linha. Nas entrelinhas, percebem-se as estrelas que ainda pairam no céu: o teu será o mesmo que vejo? O futuro está nos olhos da cigana, que, pela gana por dinheiro, esqueceu de ler a própria mão. Quais são os teus pesadelos? Sonhos são mais hábeis. Abrem-se mil destinos. Escolhe a eternidade, que na tua idade ainda é coisa de menino.

PAOLA

AGOSTO

Mês dos ventos, traga-nos o que o calor levou. Saia de Marilyn Monroe e entre pela janela. Liberdade para não temer o que virá, porque logo saberemos dela. Debaixo para cima, de cabeça para um facho. Dê luz! Banhe rostos com essa fresca lambida dos Deuses nus. Arraste o pó da estagnação e lance o pólen às fertilezas. Assim, brotaremos limpos em alma como após uma lavagem à palo seco. Seremos velhos, porém enxutos, sem essa roupa suja que se lava em casa e não a esmo, sem atingir os olhos atentos dos desamados, nem tingir os rios com sangue derramado como se fosse leite.

DESVANECIMENTO

A razão jorra o que do ralo escoa, quer encurralar o interlocutor de toda forma. Os mais precavidos não meditam sobre qualquer desforra, deixam a prosa tomar seu próprio rumo quando esta se quer monólogo verborrágico. Descarregar é preciso? Trágico! O bom é deixar desaguar em praia mansa, de coração, ainda que o barco esteja torto. Antes que os atiradores de facas acertem o alvo sem oferecer maçã, deve-se transportar o corpo, não como quem foge à resolução amiga, mas à briga mesmo. Com o tempo, o espírito cansa desse afã. À esmo se fica quando a justiça não dá mais liga e se esquece de ouvir o outro. De tão absorto, nem o vê partir. No fim, percebe com a garganta já rouca: é tarde demais. Tarde demais para sentir.

PAOLA

CERCO

Não era nada disto
Aquilo era um ritmo
Um istmo
Cisco no olho que desapercebe
A lebre indo se esconder
Era um buraco negro
Uma roda gigante
Imperceptível, a meu ver
Ceguei para a realidade
Verdade que ignora
Vou embora sem olhar para trás
Até porque a vista ignora
O que o espírito faz

PAOLA

DEGRAU

Cresça e apareça. Pereça a seu tempo, nunca antes.
Que o quedante se restabeleça de ares beligerantes.
A cada passo, deixe-o passar, laço não foi feito para atar.
Atravesse respirando, alteando o pensamento, bem livre.
Vire-se do avesso, fazendo brotar da aversão um verso.
Filtre. Imerso à verdade, não há perigo.
Pois mão, amigo, sempre se estenderá.

PAOLA

ANJO RECAÍDO

O ardor no peito do santo de barro, pela possibilidade da queda de seu alto andor, traduz a essência do anjo caído que se regenera. Esfacelamento que leva à catação de cacos, moldagens novas através de um apalpar sui generis, bem traduzido no filme Ghost – do outro lado da vida. A exemplo, Lúcifer nunca foi tão ferino assim, tudo é farol ou farsa canalizada por dogmatismos. Tudo questão de ponto (luminoso ou trevoso) de vista, a depender dos mantenedores de sua própria ancoragem. Daí, veio a substância que passou a lumiescer na bunda de singelos vaga-lumes: luciferina (do latim lucifer, “que ilumina”), uma pigmentação emissora de luz natural. Pisca-piscas verdejantes.

Só com desilusão parece mais capaz de se aproximar da visão de um quarto olho. Se houver, cabe na passagem de um inferno labiríntico em que me procuro com mais força e razão que antes, tudo pela certeza do paraíso à espreita. Oportunidade de focar e transcender no luto que se cumpre, comprimindo a verdade em porta estreita, entre arriscar e riscar um novo nome de dentro do peito. Em pulsação, ao leito, recebo o resultado desse eletrocardiograma da sorte: traço uma lista das expectativas paralisantes, cheia de altos e baixos. Montanha russansara. Ou fica ou se esvai. De tanto cair-se, levanta. Tontamente, apruma, arruma-se e sai.

PAOLA

PROVA DE AMIZADE

A poesia é minha melhor amiga. Cúmplice de olhares, repagina meu tédio, lê dentro da alma a cura que existe e a áurea de me ser santo remédio. Quem sumiu de mim, continua fazendo parte, mesmo que à distância, à base de luto ou de briga, perdão ou despedida. Partiu-se, porque somos juntos nós desatados. Traiu, porque não soube repartir o pão dos casados. Descuidou, por nunca precisarmos ser lactantes. Os diletantes, quase sempre, tornam-se vampiros de nossas melhores energias. Orgias do imperceptível. Não sabem viver sem o colostro, muito menos sem o colapso. Por isso, um lápis me basta à ponta dos dedos que não aponto. O ponto final é o maior segredo. Um ápice. A escrita nos permite continuar na próxima pauta invisível. Quando nos pomos tristes, chora a linha conosco, ouvinte de nossos clamores e desacatos. Pudores não existem, mas gozos extraordinários. O silêncio cabe na foto de um casal que toma sorvete no shopping, gélido um para o outro, na ânsia por uma audição remake de um filme dos anos 80.

No papel em branco encontro mais entusiasmo que as falas tagarelas de bonitinhos sem-sal. Abro as janelas palatáveis à herança ancestral de ainda conseguir alcançar estrelas mornas. O brilho sempre há de convir que o que virá não mais importa. Fecho a porta e escrevo o risível dentro de meu próprio vácuo. Ar comprimido pelo diafragma que milimetrifica a meditação. Atenção a quem, em vão, para quê? Os que necessitam ser reavivados pela história fazem parte de uma minoria que vence a cada dia em manchete escolhida desses jornais. Sensacionais são os vulcões dando sua lava à vista e as paisagens que se modificam em consonância ao comportamento do homem frívolo. Ser poeta, hoje em dia, está com as horas contadas, a música perdida. A grande diferença é que ele, mesmo incomodado, prossegue vivendo muito mais que os outros. Como saber? Nesse jogo de dados, só se vê a própria sorte escrevendo. Imortal enquanto fure a dor nos olhos.

PAOLA

MARULHO DE PEDRA

Petrifico-me ao musgo, sugo o sumo de um lago, largo o medo dentro do rio, sorrio ao vento tal afago. À salvo no verde, a única parede que herdo é constituída por águas límpidas. Atravesso era sem espera de erva daninha. Sou Hera sozinha, amiga do Amor, amante do acaso que dizem que não é. Eu vi um peixe a passeio no raso, em asseio de algas tal vaso de plantas, vedantas, aquário. Redoma de vidro inquebrantável, porque livre. Sem estilhaços de corte, nem cortesia em espalhafatos. Argila molda cada passo no instante do piso. Fundo de lama está para lótus, assim como a sola palmilha o desenho de pés na encruzilhada. Sou estátua tomada em banho áureo, revestida do mármore Carrara, Violeta Parra dos planaltos alienígenas. Quem meu gene regenera? Que raízes meu calcanhar plantou? Ísis de Ícaro, uma mescla de deuses, porque quem me vê não tem nada. Nada no teu mundo e, então, persevera. Cada um põe o Sol à sua maneira. Torra, cega, arde ou cresce. O nascer é quem verdadeiramente me conhece.

O TROCO

Pare de dar o que você não tem (vintém, alguém, saudade). Respeite o limite sem esperar gratidão ou reconhecimento neste plano ou realidade. Quando a gente esquece o imediato, em ato constante, surge o Amor gratuito. Quem se venderia a apreço tão baixo? Isso não significa também que se deva poupar esforços para tudo na vida, mas aplique a energia movente nas coisas certas. Corrente quebrada na praia não navega para longe, ancora qualquer espinha ereta. Deixe de se escorar nas impossibilidades. O acúmulo da ferrugem cria micro-organismos que não mais lhe cabem e lhe quebram galhos feito melhores amigos. Não se engane. Planeje-se e plane. Sim, você sabe bem quais são as marés de cheia, então reme rumo a elas. Elos se rompem na imensidão. O mundo não requer provas da sua bondade – bomba de efeito ‘cristão’ ou maestria através de propriedade verborreica, basta saber o quanto é bom para si mesmo e o quanto é capaz de perdoar sua própria fantasia. Desmascare sem demagogia, embora do que hoje se ri, quem diria, ontem jamais conseguiria. Siga seu fluxo. Luxo é caminhada, não caminho. Abandonar todos os adornos como forma de jornada. À palha, fogo alteia. À saia plissada, o desejo escamoteia pelas pernas roliças da moça. Não seja mosca morta, abra todas as portas como se fossem asas. Os seres de baixo reconhecerão sua austeridade portentosa e respeitarão a entrada feito cérberos obedientes.

PAOLA

MUDANÇA

Não, não intento mudar o mundo. O fundo do meu abismo é mais largo. A ele me lanço e, com ele, trago o melhor que posso, do fosso a um rio, poço profundo para mergulhar, nadar e emergir. Ontem, chamaram-me de gorda e pensei sobre a beleza própria das baleias. Sendo assim, prefiro afundar esse barco com remendos, esguichando águas insólitas sobre as lentes de um Sebastião Salgado. Seu olhar frio parece caudaloso, mas constatações sobre qualquer inexatidão não lhe faz mais perfeito que o mar. Tudo parecerá revolto se assim você está. Em que lugar você se respeita na hierarquia? O que sua franquia de tarifas mal-pagas diria se fosse acabar? E se seu mundo de rodas gigantes parasse no giro? Vomite o céu, atire na terra, respire o ar e voe sobre a pipa do ego crasso, tal cego que mal sabe distinguir as cores, as flores para os sem-narinas, tal prego que não sabe sustentar os Cristos a que mesmo se opõe. Muito se sabe sobre uma coisa em que pouco se acredita. Sinto muito sobre a sua inteligência.

PAOLA

ARQUITETURA

Quebrar a munheca no murro
Urrar contra a parede
E perceber que se pode muito mais atravessando sonhos
Que blocos de pedra
Cabeça dura, burra de tanto intelecto
Cenho instrospecto dentro do lago
Onde magos e narcisos derretem suas poções
Porções de máscaras
Debulhadas em lágrimas de ouro
Que não valem o tesouro das mágoas

Renovar nas águas é serenar a fronte
Fonte de outras nascentes
E assim ver crescer a raça destemida
Bebendo do caldo do caos para se reconstruir um tanto
Cessar o martelo do passado nada santo
No passo atrasado que espreita distraído
Enquanto tropeça nos próprios escombros
Ganges, Escamandro, Nilo
Ser sibilo dos novos tempos
Todos os elementos edificantes

PAOLA

REPOUSO

Quando silenciamos, ouvimos os silvos benfazejos das respostas. Mantras impressos nos sulcos da realidade. Tudo à mão, bonança e gratidão dentro de nós. A sós com o todo que há, grandes e pequenos sob a ótica do reconhecimento. Momento de presença na crença de nada, só confiança. Para cada perspectiva, um prisma vasto. De cima ou de baixo, vê-se a amplitude que permeia nosso ser. Estamos, do nódulo da árvore à casca de noz, nas cercanias da eternidade. Asas gordas de ventania pesam levezas em rastro, criança pequena ensina sóis de aurorescer, banho de pé no mar, cantar dentro da gruta, ecoar o olhar do outro dentro do peito, fazer leito no precipício da liberdade, acolher a saudade como forte indício de que vivemos outras eras, mesmo que há poucos instantes. Ressonantes de harmonia, abraçados pelo Amor ao cosmos. Micros e macros que somos, formiguinhas pousadas em gotas que ampliam até estourar tamanho. Do que somos feitos? Espíritos elásticos. Caberíamos dentro de um sonho.

ANAMNESE

669bb669bc1754dd1a2de1b891959f10Esqueço o que não mais me aquece a alma. Frieza de espírito meu período na Terra condena. Descarto sinapses que não agregam às boas lembranças neurocordiais. A melhor propulsão sanguínea ocorre quando estamos de mãos dadas ou a olhos vistos, cara a cara, palavra a palavra, em leitura labial, no disparo de feromônios à pele que conduz nossa memória olfativa feito desenho animado: uma fumacinha que embrenha-se às narinas e faz levitar o corpo em direção ao amor ou à comida. Raro perfume. Mas arrotaram a rota pelo destino delgado, desviaram o pensamento ao que menos importa. Arrogante fragrância.

Afetivamente, ainda sei de cor aqueles tempos de criança em que a única esperança se detinha na presença desse momento-instante. Chora-se segundos após a topada, ri-se imediatamente depois, com ingênua alegria. Genuína sensação. Gratitude pelo curativo colorido no dedinho ou nos joelhos ralados, que logo descascam e, às vezes, deixam cicatrizes à mostra. O neurônio é gênio quando o perdão vem rápido e sara logo os nossos dilemas adultos. Larápio é o relógio que vê passar tantos filmes sem que se possa voltar atrás do ‘rewind‘ tantos problemas, embora haja sempre começos a serem medidos e remediados sem a urgência frívola dessa ansiedade. Corpo fugaz. Perdemos tudo e, mesmo assim, somos capazes da recordação. Cartas e fotografias. Sorte da gente que insiste em sentir saudades.

VAGAR

Vou sair para dormir ao relento, fazer rebento com a rua, interagir com o silêncio equidistante dos automóveis, como se o vácuo fosse imóvel repleto de mobília. Na trilha desse mim-mesmo infinito, dá-me um faniquito escondido dentro das calças. Alcancei o topo da taça de Mercúrio feito cobra de duas cabeças, brindei com vinho, arrebentei o sutiã de tanto naufragar às pedras que me arremessaram aos montes de Vênus em brasa. Vulcânica e vulgar. Meu nariz aquilino fareja a asa menos próxima a embarcar nesse voo dos rasantes, que rasga unha por ciscar montanhas se arreganhando fácil pelo asfalto. Meu salto alto envelheceu de tanto andar, seduziu um condor que conduzia o andor do santo de barro. Derrubou todo o pecado aos pedaços e me pus a requebrar, como as ondas, dançando os quartos, cigana insana à beira-mar. Desdém? Os olhos desse instante usam saia vermelha entre quatro paredes, rodopiam vertigens sem cessar coragem. Aquém, logo se vê aquela chama – bravia do pavio, xamânica – que ninguém mais há de apagar.

INTERPLANETÁRIA

Arrumei o rumo, mas esqueci de fazer a mala. Basta-me de bagagens e de recurvar-me ante o peso desse fundo. Anciã de espírito, mulher em Vênus alinhada, meu corpo já contém tantos sais e litros d’água, que acabaria com a fome de quase todo o mundo. Amores que não se contêm e, quando se veem empossados de um que não profundo, mais se alastram pelos veios, doadores universais. Rio em cheia súbita. No estardalhaço entre peixes, transfigurei-me em sereia, mas antes que esta metade-homem me devorasse, fiz da minha cauda, aos rasgos, um vestido transparente. Persigo, agora, minha própria nudez dentro da floresta, recubro meus seios de lama, dando de mamar à mãe terra, que já anda farta de tudo, morta de sede. Leite de rosas. As raízes criadas me dragam até o Japão. Um homem de olhos puxados me puxa pelos cabelos, enquanto Dalila espreita de seu voyeurismo ancestral sem Sansão. Fomos medir forças e no que deu? O Sol em conluio com a Lua gemeu, deixando Saturno enciumado. Divorciado de seus anéis, esperou o próximo retorno à beira da estrada.

SARTRE DO ABISMO

Quem sabe, o sábio acabe aqui sem ter razão nenhuma. Intelecto em demasia tem a mesma funcionalidade de uma unha encravada. Quando o pensamento é mal condicionado, o passo anda, mas dói no piso feito siso inflamado. Pé no chão é requerido, sem se preterir o caminho do coração. Ninguém quer a facilidade mais árdua que existe, simplesmente por insistir em reivindicar o amor que não tem. Ação! Doa a quem doar, no ardor de nada saber. Como você está? Quem realmente perguntou por esses dias o que sente com audição curiosa, sem intenção de polidez, só para testar canal distanciado? Com tato, a comunicação dos sentidos se dá quando sentimos muito. Mas o que o silêncio parece esconder, que tanto mais se revela? Vela acesa em escuro quarto: um trevo encontrado na treva, à mercê de sua busca. Quem não procura, sempre acha. Quando se pensa em ter a porta trancafiada às sete chaves de vida, outras percepções se abrem, a flor de lótus é arrombada ao cairmos de joelhos e pontapés na lama. Do plantio no pútrido à colheita do néctar. Não é assim que acontece? Estamos preparados. Rumo certo. Amorteça o que o amor tecer, agora sinta. Ser o assassino do algoz e não a vítima do ego, trucidando a sina de morrer, já que estamos condenados a ser livres.

ASCETISMO

Há quem se queira demasiado sacro, arrotando às altitudes sua compostura, depois de comer, com talheres de prata benzida, o bacalhau apodrecido da Era de Peixes. Deixam rastros de salvação para os outros como se todas as pegadas fossem as mesmas, então, sem saber onde pisam, deparam-se com abismos. Nem o Cristo calçou os sapatos do inimigo, seu pé era grande demais, assim como sua fé, descalçada de qualquer falsa imagem ao lavar as feridas dos queixosos. Lave suas mãos após o apedrejamento. Lave sua boca depois de blasfemar contra os ateus. Deus, se há, deve habitar a nossa telha. Centelha divina: EUreka! Teto de vidro. Vitral importância.

A Arte é o nosso real confessionário. O Livro é um missionário de linhas tortas. Quem conseguir ler sem fundamentalismos, compreenderá o tracejar da vida, que não se intimida ao primeiro olhar. O traquejo do profano nos liberta. É tão fácil julgarem a dança do feliz quando não dão um passo à frente, rentes com sua desfaçatez no sorriso. Os santos condenam o que está a um palmo de seu nariz, porque são carentes do todo, de unicidade. São crentes de um invisível que já se pôs morto. Perdoar a quem doer, em automartírio culpabilizador, é dar o braço a torcer: contra. Todos os seres têm de ser ditosos, mesmo que se queiram malditos.

Sim, vim aqui demonizar a demagogia também dos que se querem muito profanos e, na hora do vamos ver, não são os garanhões que se pretendem fazer crer. Um falo sozinho não canta, meu bem. Vivemos anos em que, quando não 8, 80. Temperança, tem? Essa história de evolução humana não convence mais. Os animais estão bem além de nós no quesito existência em elevação. Sabem viver em harmonia entre sua espécie, lidam com sua sexualidade sem qualquer repressão e cultuam gurus sem nomes em sânscrito ou latim, são a própria imagem e semelhança de uma criança, preservam e respeitam sua Natureza. Aqui, a reza é outra. Aqui, o bicho é guardião e não tem esse seu anão de jardim. Alta envergadura de quem só come verdura e não se gaba. Garbo e elegância não requer protuberância peniana ou prótese mamária.

RUBORES

Rapazes tímidos têm também o seu encanto. Cantam calados com os olhos céleres, traçando metas platônicas como quem desalinha cabelos num sopro imaginário, desembrulhando decotes com suas intenções adolescentes. Eles sacam tudo em seu mundo paralelo, enquanto o amarelo das horas se desbota, desapontando as moças que os esperam. Admiram as mais afoitas, que os golpeiam com uma chave de pernas, embora seja sempre um mistério se elas são capazes de abrir um coração. A verdade é que esses meninos cheios de recato, quando se apaixonam, podem transformar seu gesto retesado em ação. Vão à caça do que amam armados de extroversão. Então, extravasam seus delírios, deliberadamente, em gozo, aprendem a compor canção e rabiscam cadernos com poemas rasgados.

ASTROLOGISMO

Fomos eclipsados pela imensidão
Então, eis que nosso Sol reaparece
A prece é para nós mesmos
Que fazemos o uno com versos múltiplos
Entoando cânticos à Lua
Nua entrega de ser o amanhecer da noite
Como um açoite de estrelas
Uivos de coiote excitado
Pela cheia farta
Não aparta o lance
Lança os dados pela escada
Gravitamos
Respiramos outros mundos
Inflados outrora
As crateras deglutem novas esferas
Enquanto somos sugados pela Via Láctea
Leite em pó de galáxia
A nutrir nenéns paridos

GÊNERO: LÍRICO

Hoje é o dia dela, mais um aniversário da senhora secular ou da dama trajada de novelo: Poesia. Ela que nos aquece a alma em pelo de tanto baforar a vida dentro do espelho. Mesmo sendo eterna, ainda há motivo para comemorar. Ainda mais agora, em que o caos assola a matéria, é preciso mexer o caldeirão do óbvio e sublimar. Onde se vê fumaça, deve haver uma fogueira. Se existem bruxas, que não regressemos à idade dos ateadores de brasa aos livros. Assemos nossos temores e sintamos odores de ervas. Vamos limpar! Só a Arte é capaz de transmutar em cor o bolor verde-acinzentado da esperança. Menina de trança a rodar. Tonteia, mas não cai. É um Haicai do sentir na profusão do silêncio, uma ode chinesa, na proeza de dizer com os pés miúdos em seus passos o que ninguém saberia falar. Até o ser mais obtuso, vez ou outra, transita pela poeira dos dias sem ver deserto.

Hoje, achei estar quase tudo perdido, quando um gato me olhou fundo nos olhos na saída do cinema. Pedi uma tapioca bem recheada, então pude alimentá-lo e entender que a fome pode ser maior que a birra ou a rima pobre. Qualquer ira passa com um Hipi-Hipi-Urra! Nada como o dia seguinte, que esmurra pior e a gente nem sente, porque se está mais preparado. Nada como um pedinte para jogar na sua cara tudo o que você tem e o vintém que você se presta a dar cai justo no momento em que ele quer encher a cara para esquecer. Que cara virar? Que faces ter? A moeda é uma razão para a sobrevivência das fontes. Quem não acreditar em sorte, hoje em dia, está ferrado. Mas falemos de poesia, ou melhor, façamos. É como falar de um amor que se perde em aleivosias. Tem que se praticar. A melodia se afina com o sangue. Eu desejo a todos os meus amigos poetas o melhor do lirismo quando defrontarem o abismo cru. E aos que dizem não saber da lira, aconselho sentir o crispar dos trilhos em seus trens cotidianos, chorar e sorrir, suar e levitar, mesmo que disfarçadamente. A poesia bate na gente aos poucos, feito onda em quem tem medo de nadar.

INTERRUPÇÃO

Não compro cigarros. Não morro mais cedo, nem acordo também. O que abrevia a vida: pegar sereno? Nem tive vó viva que me dissesse isso. Ninguém morreu de cisco no olho, mas é um risco que se assopra, uma alma que se deixa assombrar por suas janelas. Desfaleço sobre cheiro de amaciante, sabendo que a vida não abranda quando acorda. Ainda vou morar no campo, conversar com as flores. Calhordas não permanecem ao nosso lado. O fado poderia ser em português, mas o maracatu ressoa melancólico nessa avenida de dialetos que nunca entendo. Tambores parecem africanos chorando sua dor. Adornos folclóricos. Para quem? Turbantes são tumores coloridos sobre as cabeças descobertas. Há rumores sem rumo, louvores só de ida. Ninguém entende nada sobre buracos negros, só o amor de Bob Dylan. Como pode um fanho cantar? Mede-se o esplendor pelo tamanho, adiantaria ser tacanho o sol? Jamais seria. Então, fazem música. Embora tudo se perca quando se vai calando. Silêncio exige valentia, validade, precisão. O espocar da espuma na água do mar, o ressoar naquele vácuo engrandece tanto, que sufoca a gente. Intervalo é ilusão. Roda de Sansara não para, não para, não para, não. Autofagia da cobra. Cobrança do universo. Tente ficar quieto, olhar para o teto, presidiário de seu próprio corpo. Antes estar morto que amornar a existência. A desistência é logo ali, loto fácil. Do que desisto é das multidões, desses otários crentes que são doutos. Deteriorados. No fundo, sabem que pioram com o tempo. Vinhos amargos azedam a boca da espera. Eras e eras e eras sobre ombros de meros Neandertais. Quem quer paz faz o quê? Poema. E esse eu nem acabei ainda.

BOA VIAGEM

Lançarei um tapete mágico sob teus pés, querido Aladim. Antes estes fossem alados, pois caminharíamos a passos largos de Ícaro. Mas não decaia como ele, por favor, sem alarido! O perigo pode se infiltrar entre os ácaros e ainda não criamos olhos bastantes para isso. Amanse o veludo tal um cavalo amigo, velho e bravo. Espero não provocar-te espirros, acaso flanem perlimpimpins até tuas narinas, que poderão torcer de um lado a outro, como as daquela Feiticeira da televisão. Ninguém mexe as fuças como antigamente… Cuidado. Aviso-te de antemão: evite voar rasteiro pelos ninhos de cobra à solta, pois estas tendem a cobrar caro o estacionamento das horas. Eleva-te mais à altura que percas de vista uma desventura qualquer. Leva tua mulher para passear entre as enseadas do melhor caminho e prospera com ela. Ouro será teu combustível inefável. Até!

AO RELENTO

Batidinhas à janela.

Esta madrugada, tomei o amontoado de gotículas no vidro por ilustre convidado. Quis contemplar para além do embaço da moldura e me abri com ela aos respingos, num sorriso confortável.

922de2866dd30ecad90240b60f1f3f3fAo longe, na rua, uma mulher-fantasma andava de um lado a outro, com um lençol branco sobre a cabeça, acordada para cogitar dentro de seu susto onde voltaria a dormir, fugindo ao sujo do charco. Sentou-se logo sob um telhado mais avantajado, a esperar pelo calor de volta. Afinal, dos males, o menos danoso. Sua vivência urbana em Fortaleza-cela revelava que, apesar dos desacertos meteorológicos, este sereno não demoraria nada. Dá um vento, leva. Secará num sopro a cama sobre o cimento.

Enquanto isso, meu colchão permanece aquecido, um pouco do suor aliviado, mas um ledo engano vaza à mente desse coração: por que não somos todos merecedores de um quentinho ou de um frio certo, à medida de nossas necessidades? Contrastes existenciais conclusivos: o pior da chuva é desabrigo; o melhor, aconchego. Na natureza, coisas são feito nuvem, inclusive este sentimento nublado. Belo dia, passarão…

QUEM

Você é
Você erra
Você fé
Você ferra
Você, na sede de ser, até cede
Pede à maré para lhe trazer na multiplicação dos peixes.
Você nada
Você tudo
Você no mundo do poço
Você no topo do fundo
Você foi e já era
Água salgada, guelra e paz
Você é o que lhe faz
Como tanto fez
Você é espera
É lama, grama, tempo e todo esse arfar que jaz na terra.

ESCAPAMENTO

Buzina só contra o silêncio, que a próxima curva te deixa descansar em paz. Bate na traseira do vento, que teu intento de voar cairá pelos ais. Freia o que te enfeia para enfeitar com lama o canto dos pneus. Rola o volante para o lado direito e dê carona aos pedestres. Mestres são aqueles que beiram muitas estradas a procura de um Deus pelo retrovisor.

ESCULHAMBACIONISMO

mozAcumulo adjetivos como quem coleciona patentes. De ofensas a elogios. Meus brios se espremem quando não há identificação com elas, mas as pessoas estão craques nisso. Até os mais omissos me surpreendem com seus certames poéticos, ascéticos, invencíveis. Brincam de psicodrama com os dramas alheios e, por quererem palco ou lona, interpõem-se frente às fraquezas, saem no braço comigo, fiel aos que me leem matizes sem as quererem más. As franquezas minhas são boas atrizes? Então, muito mais me amarás. Se canto uma canção que versa sobre amores, já supõem que faço uma declaração. Se ouço outra sobre dores, já a desclassificam em rumores patéticos e se doem por si. Estou perdendo a noção de mim por dar ouvidos a quem não me sabe a metade, avalie a cara. Viro, mas não para dá-la a bater. Talvez por ter feito o bastante. Morrissey abençoe as almas dos amigos, que vão para o inferno dos bons entendedores. Não vou nem dizer. Para quando a comunicação não vai bem, inventaram as indiretas. Isso lá é coisa de gente direita… Então, saia da reta. Atenção! Retenção do bem ninguém acerta. Se tudo que é meu parece feio, quem desdenha quer apetecer. À falta de conhecimento inteiro, costumo chamar preconceito. Os íntegros estudam antes de saber.

Ironia fina, faro fino, operação pente fino, mas fineza que é bom, agudeza de caráter, cadê? Nunca afirmei ser a melhor no trato humano, por isso pergunto. Cadê? Não está mais aqui quem falou, porque vim para escrever. Despejar a água suja do sabão que não querem lamber. Veja como é bom ser invisível. A beleza vai envelhecer e pode nem dar filhos. Não há trilhos para o que se pode ser, se a vontade de voar vem do espírito. Estou em expansão no mesmo planeta que você. Sinto-me um estrangeiro, uzbesquistão mal quisto falando alemão, por vezes, inimigo. Melhor ter este por perto. O aperto de mão pode ceder. O chão pode se abrir. Só a boca que devo evitar, pois se vem uma mosca e outra a pegar carona no meu dejeto, projeta-se no que nem disparei. Ou seja, o que era projétil, virou míssil, o que era cocô, defequei, dei fé. Pequei, Senhor! Ai de mim se usar o pronome possessivo no “tu”, sendo “seu”. Nunca fui com a cara dos Parnasianos, licença me dei à poemática e mesclei o nó da gramática com coloquialismos. Imagine se suspeitassem que estudei fundamentos linguísticos e que, por isso mesmo, é que acabei com estes preciosismos. Despetalei a última flor do Lácio quando ela já nem de donzela se fazia. Azia me dá a própria língua, às vezes. “In the beginning was the Word, and the word was with God.” (John 1:1) Bla bla bla, bigmouth strikes again and I’ve got no right to take my place with the human race.

INVESTIDA

galinhaRisca de giz o meu brim
Rasga meu jeans
Mete o cetim dentro da calça
Arranca minha alça no dente
Sente o nosso tecido nervoso?
Levanta esse vestido até o umbigo
Vê minha calcinha de renda
Renda-se a cada fio de meia ¾
Vamos para o quarto de despir
Quero sentir seu aveludado
Novelo de lã em pelo na anágua
O fecho-ecler não quer abrir
Desafivelemos com calma
Meu modelo, já o quero nu
Estou sem sutiã
Olha quanto eu suo!
Nós nos amamos sobre a trouxa de roupas
Sujas estampas que logo poremos a lavar
No varal, uma cueca branca entre as rotas
Denuncia por onde tentei lhe desabotoar
Meu batom também manchou o colarinho
E enquanto as nossas peças não enxugam
Na máquina a centrifugar peço outro carinho
Em cada poro sem ar que seus beijos me sugam.

ARMADILHA

radiaçãoNão mais se tem estômago, por tanto ácido fático.
A língua é ferina, fere os ouvidos e tem garras.
Deixa o osso cardíaco em fratura exposta.
Os animais estão à solta dessas amarras.
Amam o nada do que há em si, presos à dor.
Outros são outros quinhentos, cédulas numeradas.
Quem tem cor tem medo.
Até branco se avermelha.
Amarela putrefata a orelha de Van Gogh.
A esperança desbotou o verde da paisagem.
Pinta-se o retrato falado da verdade.
Distorção virou poesia, afasia isenção.
Viraram a casaca dos valores.
Sociedade de uma hipocrisia insaciável.
Teme o porvir, pôr de sol a atear fogo no mar.
Nossas cavernas estão cheias de sombra ainda.
Dependurados em suas próprias tripas, os covardes.
Mortos por asfixia. Quem tem ar em meio tóxico?
A buzina do monóxido não serviu para acordar.

SILENCIADA

tumblr_ni0rh6lMiK1rxx1vlo1_500A palavra perde sentido quando o sentimento nos revela. Amar é como fazer silêncio após um curto-circuito tagarela: do atrito dos fios desencapados, vem o fumacê incensório da calma. Desfaz-se a bomba de querela no bem-querer. Prestidigitação invisível? Se não houver perdão no gesto, que haja o vento à vela e apague os ânimos. Enquanto se pensar que a paz só adestra, o confronto persistirá na destruição. Em todo ser humano, o orgulho protesta, nefasta sua percepção de poder. Só se ganha ao se perder a noção do lucro. Fulcro é sustentáculo, o resto é alarido.
Vencer é não ser visto. Já projetamos um final feliz no arco-íris com sua arca cheia de ouro. Pura ilusão de ótica. Esquecemos o processo, passado e presente, onde o sol em conluio com a chuva é que faz produzir colorido.
Hão de nascer criaturas caladas, pois se aladas, eu me desminto ao reconhecer. Mistifico as massas cinzentas que mais parecem nuvens a fechar o tempo nesse disse-me-disse sem dizer. Confundir quem consente impunidade por não bradar o mesmo grito é falar às paredes. Brancas, tremulam às janelas uma esperança e uma vantagem que a indiferença maculou. Sorriso amarelo ao verde-vômito cheirando a desabafo. Raiva se transmutou em buzina, ponte em muro, poste em murro, morte em viver. O que sei eu de você? Conviva comigo e me perca, impermanente tal este amanhecer em pôr no horizonte mergulhado. Eu sou o NADA.

TOCATA E FUGA

serenade

Uma serenata, quem me fará?
Moro no quinto andar, sou alta.
Traga guindaste, radar e me sequestre.
Tudo em tom grandiloquente, quente e agreste.

Não nasci para louco pouco, frio morto-vivo.
Tem que ter coragem, afinco, mostrar todos os dentes.
Buquê, guitarra, canto, bala e crivo, estar presente.

Atributos robustos a quem me roubará.
A alma? Não. Parte do coração. Partirá?
Porque quando não estou cheia, estou repleta.
De tiros. E aí você terá de me escudeirar.

Bata à minha janela pela madrugada, portanto.
Com aquele silêncio que se pressente em vida.
Venha, mas venha depressa, antes que o sol desponte.
Antes que meu sol poente chore com outro luar.
Antes que eu dê de cara com um poste.
Iluminando meu quarto, me pondo acordada nem que goste.

ESPIRAL

14981256-black-and-white-hypnotic-background-spiral-hypnotic-diamondFalho, eu que sou homem, somam-se às rédeas de viver duas mãos calejadas. Os pomos de dentro das palmas servem para cultivo de força, segurar cascalho sem atirá-lo no lago imundo da boca de lobo. Floração da fossa. Tal gota de orvalho a dar viço, hidrato as ramagens mais secas com lodo, dou banho de bebê a ouriço, brinco de deixar perfume nas maçanetas em cada abrir de portas.

Invisível à vizinhança. Ser capaz de atravessar as paredes das casas faz os pés descalçarem as botas, pisarem rastros de musgo em círculos. Biodança. Vejo vórtices por onde escoam os espíritos. Rio-me de tudo à volta, pois até choro de mau-agouro pode ser um bom presságio por agora. Acerca do que não consigo, sigo com acerto a quem parece amigo e isso é raro.

Naufrágio. Aprendo a dar nós de marinheiro em crina de cavalo e valho muito à natureza do perigo. Como tudo neste mundo é frágil…

FRIO

rain

O mundo todo toma seu rumo na tempestade.

Os pássaros se abrigam sobre as asas, os peixes alteiam às cheias marés em cardumes, os amantes se tornam mais amantes e os solitários mais relampejosos dentro de seus quartos. Cobrem os espelhos com lençóis antes usados, tantas vezes divididos com outros braços, bem passados à cabeça, pernas e pés lavados com cheiro de infância. Amaciante ou sabão em pó. E agora, eles teriam medo? Enfado.

Relâmpagos. Anoiteça o que anoitecer, o dia será sempre cinza e gélido e mouco e raro. Só, há quem se proteja dos sonhos em sua própria cama. Amorna. Afunda. Entende. Levanta! Tem lama lá fora para os meninos que saltam poças, as moças levantam a saia molhada feito crianças, agarrando a barra pelos joelhos, enquanto o grosso do tempo ainda escoa pelo ralo…

À BRASILEIRA

Coça o cu do macaco
Como o teu, como o meu
Quem comeu o nosso?
Descasca a banana em riba da mesa
Enraba chipanzé sem asa
Faz a chita do vestido voar
(On The Road, Jack Kerouac)
Mais brega que Carmem, só Roberta Miranda
Vamos todos cantar a poeira da estrada
A carona era feia feito briga de foice
O dia por detrás do coqueiro verde foi-se já
macacoMaduros a vida, o catarro, o presidente da Venezuela
E a vuvuzela, que não deu sorte no jogo, tupinicará
Foi fazer pique-nique no parque, arrastão passou
Tudo passa, até essa farsa evaporada em petróleo
Descontrole o povo brasileiro:
Tire a cana, a novela, o amor de rapariga, o galo da briga UFC
Cai a fossa, lambe a própria ferida
Tiro na testa é de graça e cicatriza
O Brasil é uma besta!

EUNÍRICO

olhoEu sou o assombro às avessas, o escombro sem pedras, o murmúrio do rio que corre por debaixo das minhas descobertas. Eu sou o lírio manchado de branco, o acalanto funkeado das três horas da manhã com os bêbados em seus carros, acidentalmente mórbidos. Eu sou a semente do limão presa aos dentes do macaco, não tenho asco do medo, não tenho azedo nos espasmos. Sou livre de toda raça, de toda falta de cor. Sou a piração de Nero, a pilha alcalina dos crânios que não cessam à noite. Eu sou o dia na praia enfeitado por cocos abandonados em casca. Verde e dura. Esmeralda. Não tenho pudor das minhas vestes, mas estou nua nesta dança do ventre com um pênis amarrado à minha testa. Vou assobiar um cio, bicar um grito, cochilar um ronco na chuva. Vou caminhar sobre nuvens feito o piolho nas barbas de deus.

Eu sou Jesus Cristo Conegundes Vieira. Analfabeto de pai e mãe. Eu sou artista de rua mal-amado no Brasil, bem acolhido em Londres. Eu sou de Flandres. Comi aroeira e arrotei juá. Não sei fazenda nada. Sob o luar, corrijo correntezas, acorrentando mares. Eu sou baluarte popular, solto pipa do telhado quando me dá na telha. Quebro ouvidos com passos, por cima, vejo estrelas. Encabulo cometas quando sei trovejar. Minha boca é um trompete, os olhos tímidos, os cílios cínicos a escovar ventania. Vou te falar. Eu estava comendo pipoca quando um dia me veio um estalo. Pensei. Por que não pular? Então, saltei de salto quinze da beira da panela e caí no gogó do sapo. Virei ebó de príncipe. Mastiguei, mastiguei e nada de casamento. Fiquei para titia. Agora, eu me pergunto: que diabos vim fazer aqui na fila de grávidos? Engordei com a cinta até a papada. Contratei cirurgiões cubanos, amiguei com um e tive três tiçõezinhos. Tinham dentes mais alvos que os de alho, a morder o mamilo de um só peito. O outro entupiu sem leite. Queriam morder o assoalho feito cães. Anos depois, eu me vi latindo, mais afável que os humanos.

Havia transcendido às priscas eras do paleolítico. Rangava salada de plâncton. Virei vegetariano, mudei de sexo pela segunda vez, implantei microasas de colibris e me libertei do convívio com demasiados. Estou na medida. Ultrapassei os mil metros na maratona dos suplícios. Meu vício hoje é fumar maços cheios de ectoplasma. O fenômeno das mesas girantes acrescentei às atrações do trem fantasma. Fumacê de gelo seco. Eu sou um circo. Eu sou forragem, pasto e milho. Eu sou a ferrugem no trilho do trem. Eu sou um trailer antes habitado por Alex Supertramp. Mesmo fiasco, eu não me desisto. Back on the chain gang.

DOMINGO

Domingos têm cheiro de chuva, mesmo quando faz sol. Demão de cal nas paredes de casa, mormaço nos terraços. Às vezes praia, às vezes futebol. Mais tempo debaixo dos lençóis, a sós ou não, pela certeza ameaçadora do dia seguinte, que já chegou atrasado no trabalho. Almoço em família pedido por telefone. Preguiça de chegar. Apetite perdido. Os carros rareiam pelas ruas mortas, enquanto os assaltos andam de motocicleta. Domingo parece um outono, febril com suas quedas de árvore, quebras de perna a quem não vai para lugar algum, dor de cabeça a quem amanhece de ressaca. Domingo, estatisticamente, apresenta os mais altos índices suicidas, quando das tentativas de enforcar as segundas-feiras. Asneiras em todos os canais abertos. Nos fechados, a TV por assinatura reexibe clássicos do suspense Hitchcockeano, tão desgastados quanto dentes em unhas roídas.

Domingo tem cheiro de baralho sobre a mesa, espirros de criança brincando na calçada, pela poeira da faxina a abrir a semana. Domingo não engana ninguém, tem olheiras e cabelos desgrenhados, visitas inesperadas e muita solidão, também. Domingo da fossa estourada, da disenteria empostada na voz do cantor sertanejo, do som do carro daquele vizinho que não precisa levantar cedo amanhã por culpa da cachaça. Domingo tem medo do fim, da insônia e da liberdade. Domingo abarrota os cinemas com casais e pizzarias com celulares iluminando rostos que não se cruzam em olhares por mais do que cinco minutos. Domingo se levanta para fumar lá fora e avista os amigos conversarem sobre amenidades. Domingo segrega. Domingo aplica a prova do vestibular, encabula o aluno mais gabaritado até prestar concurso. Domingo de judeu, resguardado, com ceia, enceradeira, louça malsã que se quebra à cabeça do marido. Domingo desapaixonado, cheirando a café na mamadeira posto por engano.

Domingo, dia de missa e fofoca na praça, paquera entre pipocas, dondocas em casamento. Domingo das velhinhas reclamonas, dos jornais escondendo os semblantes cansados, dos livros pesados sobre a perna. Domingo de momentos enquadrados nos porta-retratos. Domingo dos certos e errados, das lembranças esquecidas pelo mal de Alzheimer, do amarelo ralo nas cartas há tempos fechadas naquela caixa da parte superior do guarda-roupa. Domingo cheio de pratos para lavar, depois, sentar no sofá e fazer um balanço das horas vindouras. Domingo é um planejamento do próximo domingo, dia de chorar sem cortar cebolas e andar de ceroulas pelo apartamento. Domingo que é domingo faz as pazes consigo, numa boa.

COSMOS

…É o Amor que invade sem que pareça invasão. Essas terras nunca foram minhas, todos posseiros são. Invencível aquele que ama. Só perde quem pensa em perder por se dar. Solução aquosa, adequada aos mergulhos mais profundos, sem sede ou sedução. Abraça das unhas ao pé do cabelo, desencrava pelos de eras e se põe nu através dos tempos. Um respiratório a céu aberto. Não vê poros, não cai em buracos, atravessa sem dor. Despudora, depurando com olor de brisa por onde passa. Hálito, halo e hábito de refrescar a mente. Segue a sentir compaixão, não pena, pensa como o outro reagiria em seu lugar. Acena sorrindo. Intuição a largar tudo pela frente sem que o dito crente em si se ofenda. Espiritualidade a alargar campos por depositar novas sementes. Comunhão com o próprio pão: germinado, colhido e processado por mãos absolutas. Oferenda. Nada à esmo, sem enfado, nem ofensa.
O cosmos lança dardos de luz e sintoniza com as frequências altas, em alfa, no seio da selva. Seiva de alfazema dourada. Amada és tu de alma em corpo. Fora, és geada, mas não faz frio, renasce em flocos de paz a emoção. Remove montanhas de medo com chuva e lufada, limpeza que afaga com o olhar da criação. Chora cachoeiras libertárias, solta libélulas, colore as porções de concreto com mata, revive uma inteira nação na raça. Sábia noção de quem consola. Mãe cheia de perdão. Com o Sol de Ser não haveria de haver tantos lamentos. Somos santos com sexo, anjos tântricos a projetar saltos pelo infinito. De espermatozoides a humanoides bonitos, construtores de pirâmides, Parmênides, Acádios, arquidioceses poderiam cessar papados, proliferarem monges. Tecnologia de sobra. Do vale das sombras à luminescência nascemos. Ciência. Todos os bons momentos não passam de agora…

ARBÓREA

Queria ser uma árvore. Daria sombra, flores e frutos aos filhos da mãe Terra. Fincada ao solo, inconscientemente feliz de estar ali ou acolá, respirando e fazendo respirar, incondicionalmente. Pode abraçar! Agora, presente, tronco ereto, emanando olor-madeira sem representar barreira alguma a quem passar. Sem sair do lugar, a não ser quando embalada pela dança do vento, sopraria pólen, salvaguardaria ninhos, germinando sementes que caem, displicentes, mas crescendo para o alto, sempre. De toda maneira, quando a gente morre no corpo é mais ou menos isso o que acontece. Natural. Estrumo e húmus: já que somos humanos, afinal.

CALENDÁRIO GREGORIANO

0e62864c6d93536da689c6c72c3af15eÉ pela falta de garantia que me apaixono todo dia, é este olhar para frente, arco-íris com a íris das possibilidades que somos capazes de criar, sem a privação dos tempos das cavernas, sem termos de gritar à mouquidão do anonimato ancestral. Hoje, muitos mais se conhecem e pagam o prato principal de se degustarem à distância. Tabernas temos para celebrar, apesar das luzes dos celulares a mostrar outras receitas de viver. Voltemos à realidade só por uma hora. Nada a pedir aos ventos, mas fazer soprar o que já nos coube, doar qualquer coisa que não nos veste mais, a fim de que o ar se expanda. Assim, o fogo cresce, mata o velho, purifica. O pulmão se acende sem cigarros, agora é lei. Basta-me a gravitacional. Nunca precisei, aprendi a meditar: inspire, expire.

A noite é branda, faz adormecer melhor o morador da rua, sob a proteção da lua e seus astros mais audazes, que os habitantes de palácio, em seus vícios de consciência intranquila. Vim beijar a boca de fumo dos delinquentes, as partes baixas das elevadas prostitutas, assim como fez Cristo e todos os outros avatares, até aqueles tidos como charlatões, só porque a igreja e a sua brotoeja espiritual incurável quis assim. Osho que o diga, intriga da oposição, yin-yang, sim salabim! Agradeço aos baques com a verdade absolutista do outro, aos chiliques de moralismo alheios, pois isto fez ressaltar o sabor verdadeiro dos favos de mel retirados dentre as abelhas, por todo amor emanado.

Vim desfazer promessa, assumir só minha posição, porque a politicada está na fila dos descumprimentos valorosos. Decepção por quê? Não esperava? Cuidado com os verbos: ‘esperançar’ é produtivo em ação, mas ‘esperar’ não. Os cidadãos, votantes, democratizados pela desilusão, parecem meninos trocando de paixão a cada semana na escola. Nem dei bola para isso. Vamos estudar para então irmos à luta, crianças. 2015 será marcial, o planeta regente é Marte, muito cuidado para não dar marcha ré nos contra-ataques. Não adiantará nada nos fingirmos de marcianos, alienados de nosso próprio destino humano demasiado, assim como pouco resolverá partir para o desatino dessa violência torta. Abra tua porta. Axé, saravá! Ogum nos abençoe…

ESTAÇÕES

1f757338b98c58ef9dd625f51cadef1aMadrugada rasga véu com suas unhas compridas
Feito noiva a descasar antes de ter a mão pedida

Nuvens que no papel do azul compõem indrisos
Abrem sorrisos em despedida à pele boa da tarde

O sol sem sono arde pelo ocaso e então apaixona
Raio a colorir mar que ondeia com chuva de outono

Quem tem arco-íris dentro de si vai se abismar?
Nunca encontramos potes de ouro por detrás…
Só ficam além dos portais as nuanças do existir.

CIRCUNLÓQUIO

Ó títere, a ti tens?
Não estás em boas mãos.
A linha da vida te prendeu.
Agora és presa de deuses, patrões e televisão.
Dance like Big Brother is not watching you!
Há quem tenha fetiche de ser fantoche alheio.
Genes alienígenas em gente sem coração.
Ilusionismo dentro do vapor barato de cigarro.
A propaganda corroeu a elegância dos franceses.
Bonecos povoarão ventrículos, esquerdo e direito.
Ventríloquos inócuos a marchar fora do tempo.
Direita e esquerda, sem saída à rua da comoção.
Como são os líderes? Chorariam eles?
Servem pratos frios. Comem com as mãos.
Por um fio, liga-te aos dedos da criação.
Criatura, cultua a ti mesma.
Antes que te enviem para Marte.
Martiriza-te e eles te amarão!

PALADAR

paladarDos sabores que me sabem a boca, aprecio os que me sangram os lábios, no acre-doce escorreito da saliva. Vários: os de frutas vermelhas. Um prazer em cada gomo estourado aos dentes feito borrado de batom. Empapuçada até as sementes, engulo grão e talo. A não ser quando em solo fértil, à cata de galhos de framboesa, a correr à relva de se ser menina, à revelia da selva, cuspo todo o chão.

Que me arda! Haveria de lançar da língua muitos pés de uva, amora, cereja e jabuticaba, sem demora, a namorar o plantio até a colheita, em meditação, dos primeiros ramos aos rumos da flora. Papilas gustativas e pupilas que dilato de predileção.

MUDANÇA DE TEMPO

As amígdalas são premonitórias na iminência de chuva, arranham a garganta até que desçam as primeiras gotas. No momento, só uma ameaça longínqua raja o céu de cinza e a brisa fica ainda mais fresca. Espero que não vente tanto a ponto de levar esse aconchego para longe daqui. Sol também precisa de férias, na companhia de quem, desnudo, quer se abrir. Já os que preferem o frio, guardam seus biquínis, emulam segredos entre as cobertas e aguardam respingos para além das janelas. Os pássaros silenciam. Vamos ouvir, fingir que as nuvens são roupas encharcadas e torcê-las no varal do pensamento.

CARTOGRAFIA DE AFETOS

Faria dos mapas astrais um Atlas Geográfico.
E desses horóscopos de jornal, um estudo numismático.
Colecionaria selinhos,
Marcas de batom em cartas e outros tipos de beijo.
Comporia via satélite a influência da lua
Em poços do desejo sem moedas.

Chamaria este poema de: Do amor e outras fossas.
Isto porque as rosas têm exalado muitos outros cheiros.
Pétalas guardadas em livro
Como borboletas presas pela asa em vidro.
Tiro ao pássaro empalhado para matar a sorte de um vôo,
Nenhum pio.

Perdi o equilíbrio lendo dentro do ônibus
E encontraram meu livro, não eu.
Tudo um estorvo, um breu,

Agora corvo carrega galho de arruda no bico.
Não acredito em muita coisa, mas agradeço a deus todos os dias.
Suas crias não sabem do mito, não cabem num rito de passagem.

Já fiz altas viagens comportando mais litros de álcool
Do que lágrimas.
Por um triz, o rato está para cobaia
Como está a ratoeira para o queijo.
Leis da física não cabem na sua meta,
A tísica nunca estará além do corpo.
Reta, quadrada, carente, solteira, feliz.
Seu pior sentimento estava morto.

PEIDORREIRA

Um cu sorri alegremente para a cara da sociedade.
Fossa a céu aberto, precisava cultivar mais dentes.
Tudo contra achaques moralistas presos sob véus.
As saias compridas a cumprir promessa de crente.
As vaias contidas, os gritos sem gozo pelo bordéu.

– Dê uma mente criativa ao são, torna-te demente:
Papa-léguas rezou célere à hora da missa do galo.
Até um morto falou no sétimo dia, a duras penas.
Escarnecer da carne fraca é punhetar o mole falo.

LÍQUIDO AMNIÓTICO

Ele não sabia nadar. Era pedra, afundava. Apreciava mergulhar no lado mais profundo da piscina e lá permanecer. Bastava. Pura meditação. Sentia o corpo pulsar dentro d’água enquanto mantinha os olhos bem fechados, imaginando-se um peixe de aquário daqueles translúcidos e luminosos, de se ver o coração palpitar, de se enxergar o plâncton sendo digerido em cadeia alimentar, de se alojar no mar feito prisão e simplesmente ser. Por dentro. A respiração presa por muito tempo relaxava a cabeça, o sangue comprimido livrava-lhe do barulho lá fora, da secura das pessoas, frias, absortas, quase mortas.

Ali estava quente e protegido, a sós com seus órgãos, encapsulado por um útero artificial que logo lhe pariria de novo ao mundo real, de minuto em minuto, como a roda da serpente: ouroboros. Emergia de vez em quando para capturar o fôlego, depois retornava. Era um vai-e-vem entre silêncios e gritos de crianças que brincavam ao redor, embora respeitando o espaço do menino. Quando resolvia abrir os olhos, contava quantos outros pés lhe circundavam, como se fossem irmãos de uma mesma mãe adotiva e quadrada. Azulejos escorregadios, gotículas formadas, vibrações graves contornando seus ouvidos. O globo ardido. Parecia mais pálido que antes – constatava ao olhar para as próprias mãos. Por demoradamente submergida, sua pele enrugava. Mal havia renascido de novo e já velho se reencontrava. Fetal e edil ao mesmo tempo, mas na idade consciente de um menino.

DIA

Abre-se o horizonte dos cílios
Pupilas em ninho, dentro das pálpebras
Vislumbrando a erva que vai do solo ao bico
Plantada árvore que voa às matas
Em caudalosa água boiando troncos
Pernas de sândalo decepadas
Choram a seiva do que se foi à foice
No ar, um cheiro de natureza morta
Mas vê: a camada ozônica nos supre
Assopra em ventos alísios as boas novas
O seio de Gaiamazônica nutre nossa orbe
Enquanto acordas dissonante no enleio das horas

A FETO

A cada dia te sinto melhor em mim.
É como um embrião crescendo no íntimo do corpo,
a gente estranha às vezes, mas depois que desentranha,
soa como uma oferta ao mundo em felicidade.
Explosão de estrela embelezada pela distância da noite.
Só a projeção espacial saberia dizer
as milhares de implicações solares dentro do cosmo.
Aérea, viajo por osmose na tua companhia.
Estendo as mãos para colher tua cadência
e guardo os sonhos nos punhos.
Olha que nem são pequenos,
a alma suga o que é de bom quando ela se põe grande.
Descobri que sou um ovo de avestruz intergalática
e ainda dou de mamar a quem me ama.

CUMPRIMENTO

A palavra perde sentido quando o sentimento nos revela. Amar é como fazer silêncio após um curto-circuito tagarela: do atrito dos fios desencapados, vem o fumacê incensório da calma. Desfaz-se a bomba de querela no bem-querer. Prestidigitação invisível? Se não houver perdão no gesto, que haja o vento à vela e apague os ânimos. Enquanto se pensar que a paz só adestra, o confronto persistirá na destruição. Em todo ser humano, o orgulho protesta, nefasta sua percepção de poder. Só se ganha ao se perder a noção do lucro. Fulcro é sustentáculo, o resto é alarido. Vencer é não ser visto. Já projetamos um final feliz no arco-íris com sua arca cheia de ouro. Pura ilusão de ótica. Esquecemos o processo, passado e presente, onde o sol em conluio com a chuva é que faz produzir colorido. Hão de nascer criaturas caladas, pois se aladas, eu me desminto ao reconhecer. Mistifico as massas cinzentas que mais parecem nuvens a fechar o tempo nesse disse-me-disse sem dizer. Confundir quem consente impunidade por não bradar o mesmo grito é falar às paredes. Brancas, tremulam às janelas uma esperança e uma vantagem que a indiferença maculou. Sorriso amarelo ao verde-vômito cheirando a desabafo. Raiva se transmutou em buzina, ponte em muro, poste em murro, morte em viver. O que sei eu de você? Conviva comigo e me perca, impermanente tal este amanhecer em pôr no horizonte mergulhado. Eu sou o NADA.

DINHEIRAMA

Neste país, melhor respirar propano que propina. Às mão cheias, há sujeira e reagentes na gasolina. Petróleo pela cultura e controle remoto para a tevê de plasma criam miasmas na mente. As massas celebram celebridades. Seriam Reais os indivíduos ou as cédulas? Dividem-se entre as dívidas, centenas. Aqui, trocam-se medulas ósseas por cédulas, caindo-se na esparrela dos velhacos, enquanto velhinhosesmolam instantes de vida, tão pobres, tão fracos. Os poderosos oneram as horas de trabalho, larápios da essência humana, mecanizando o mundo em tempos post-mortem-modernos. Calam a boca dos pobres à base do cabresto afixado na ignorância. O povo vende sua alma e voto de acordo com a circunstância. Mas logo esquecem, todos mortos. De fome, nome e alfabeto. Do progresso, restou-nos a desordem.

O mundo todo toma seu rumo na tempestade

Os pássaros se abrigam sobre as asas, os peixes alteiam às cheias marés em cardumes, os amantes se tornam mais amantes e os solitários mais relampejosos dentro de seus quartos. Cobrem os espelhos com lençóis antes usados, tantas vezes divididos com outros braços, bem passados à cabeça, pernas e pés lavados com cheiro de infância. Amaciante ou sabão em pó. E agora, eles teriam medo? Enfado.

Relâmpagos. Anoiteça o que anoitecer, o dia será sempre cinza e gélido e mouco e raro. Só, há quem se proteja dos sonhos em sua própria cama. Amorna. Afunda. Entende. Levanta! Tem lama lá fora para os meninos que saltam poças, as moças levantam a saia molhada feito crianças, agarrando a barra pelos joelhos, enquanto o grosso do tempo ainda escoa pelo ralo…

MEIO SORRISO LARGO

Sem desdém de Monalisa, um réquiem dentro do peito. Brisa fresca ao luar. A gestação do que pode ser, se o universo conspirar. Estrela da sorte, a morte do ido e o nascimento do doido, o crepúsculo dos ídolos dentro de um ósculo platônico. Enquanto isso, respiro, sem aspirar a nada, porque já sou. Amar com um remo na mão, sem rumo certo. Meu temor anda destemido, só teimo no gemido do gozo. Mastro ereto. Alimento-me do que é caro, sem custar, nem cuspir o prato. Meu predileto é sonhar gostoso.

MÁRTIRES DE VÊNUS

Somos frágeis fragmentos
A cortar nossas próprias cicatrizes
A contar histórias, nós mulheres
Atrizes de pernas arqueadas
A desfilar suas feridas felizes

Elas dão vida a carnes sangrentas
Bocas chamejantes que beijam a sorte
Meninas famintas da África em manadas
Sendo loiras, azuis, ruivas ou morenas

Unhas compridas desenham nas costas
Um suporte de penas para suas asas

DESJEJUM

Os pães têm mais miolos que essa gente faminta
De mentir em seco o que se quer em finos grãos
As mãos postas à mesa denunciam alguma fé
Em si, amanheceria com todas as cascas
Refletiria o pretume da alma dentro do café
Pingaria amargo leite nos olhos fixos
Espantaria moscas sem usar as facas

O silêncio das horas parece prolixo
Mergulha seus ares na manteiga
Derrete-se Dali
Salvador de meia tigela
Do que já foi azeite em tela
A pintar o que sorri

Um hálito só pela manhã
De dois monges que se beijam
Falando sem medo sobre sol e romã
Segredos farfalhando à brisa
Doces lábios de amor ensejam
A flor no talo que o calor eterniza

CHORAÇÃO

Das excreções mais sinceras vertidas pelo íntimo do ser humano, a lacrimal se afirma do alto de todas as janelas, suicidando alegrias e tristezas, a exprimir o que se é, sem esperar por perdão ou pena. É a lavagem estomacal e cardíaca da verdade, olhos nos próprios olhos, o voo do âmago sobre cantilenas. Uma ave de fogo que nos abana com calma, mas antes o ardor que a gangrena. Amputa o verbo que não se fez compreender, quando já desistiu de ser entendido. Língua a morder. Retira as farpas do ego, implodido em rendição. Pranto é orgulho furado, o sangue disfarçado de purificação. Transparente água a salgar tantas feridas dormentes, meio como o mar, muito de naufrágio, pouco de correntes. Às vezes, vem silente, contrita, outras vezes, grita, geme, empaca no desespero de não ter absolutamente o nada dentro desses nós. Enforca, enfada, comunica  gratidão, comoção ou raiva. Afrouxa catarros e catarses a escoar vertigens pelo chão. O porão da gente se abre depois de tanto tempo, exalando odores e marcas, reencontros com baús, perfumes, redes e anzóis. Deixamos de ser 70% mágoa, exauridos por limpar a lama que se acumula ao redor da cama, das tramas, dos precipícios. Assim, os cílios varrem tudo para debaixo das sombras, descortinando-se véus em céus tornados cheios de cores, das tantas que não identificamos por nossa limitação carnal. Há um número maior que sete nesse arco-íris equidistante, além de potes de ouro enfileirados a quem quer que seja ou almeja suporte. Não há ter. Deixa-se de ser ladrão, por ser tudo grátis, de pedras amatis a diamantes. Antes de sair a roubar, ninguém é mais refém de seus alardes. Somos todos portadores de poros e doadores de suor. Nosso trabalho é banhar a vida de calor humano ao fustigar o sol com fortes abraços, regando a Terra com Amor.

HABITADA

Lacrimal nenhum fará à natureza
Quando esta se emprenhar de tua reza
Vai brotar a réstia da esperança
Feito um índio a migrar desse planeta

Canoa furada em lagoa mansa
Não vira em maré ao atingir enseada
Amarrado um chocalho no pé
Sobe ao galho sem querer pertencer

O amanhecer não foge à regra
Existir é negra fonte, inesgotável lida
Ao anoitecer em sonho punhado de areia
Faz um bebê amamentar-se do passado

Ilha pariu uma porção de terra
Sua filha então passou a ser circundada por água
Todos os lados choraram por ela
Bolsa estourou mar em vida.

IMATERIAL

Embora sabendo da existência daquela seção de Achados e Perdidos, fez questão de levar tudo a perder, porque tudo já estava meio que perdido mesmo. A esmo… Esquecer poderia aquecer a alma com algum equilíbrio: ebulição de vida. Foi embora e desapegou para sempre do que supôs tão memorável quanto uma estátua de bronze no meio de uma praça, deixou dentro de um cofre guardado por alguma boa alma ou algum gênio da lâmpada o seu arsenal de vícios e vicissitudes. Agora se sentia mais viva, sangue novo em transfusão, o punho livre. Do abandono consentido, encontrou-se ao final. E pelo extravio de olhares, alhures, ninguém mais fora encontrado por ela.

ENAMORAMENTO

Flerte entre retinas nunca se dá em linha reta.
Mar se pôs a engolir horizonte com sol e tudo.
Fez-se a noite, então, para os cegos de amar.
Despencou luar cá dentro do vesgo momento.
E agora, como enxergar todos os náufragos a salvo?
Como atingir o alvo dos corpos em beleza reinantes?
Assim, passaremos a ver esses espíritos que somos.
Dentro de um sonho, à espera das estrelas cadentes.

TIMING

O tempo fazia ponteiros de relógio com bigodes de Dali
Quando o velho acometeu-se da perda dos cabelos,

Mais nenhuma mecha havia ali.
Compunha odes e réquiens a todo instante
Enquanto crianças degolavam seus brinquedos
Sem tantos medos, davam corda na vida
Pulavam barbante sem nenhum alarde.

Acionavam o alarme sem demora na saída
Uns vão, outros ficam – que assim ela permita
Não há regra que se repita, é pelo fim que se começa
E para não perder a hora nem a cabeça, boneca:
Esqueça! Os segundos ainda serão os primeiros
Os minutos farão minuetos em sol maior
Para os cucos na porta de entrada.

ÓSCULO NO ECURO

Ainda estou traumatizada com o golpista
Quis me matar sufocada com aquele beijo
Enfiou sacola na cabeça sem deixar pista
Como ratoeira aguarda mordida no queijo

Faltou muita saliva à minha baba no dente
Afinal a boca tem de ser bem chupada
Percebi que eu esfomeava de repente
Quando era para me sentir incomodada

Mecanismos de ação bactericida
Não nos deixam imunes à nada
Se bem que há boca contorcida
Que parece até lamber calçada

Senti a língua se mexer com certa raiva
O suor foi me prendendo todo o fôlego
Roubo de hálito dá cárie? Não que eu saiba
Mas senti: barbárie de amor é um fenômeno!

SQUASH

Andava a tatear o breu sem fim, travando um colóquio com paredes mudas. A voz transformada em bola de tênis batia e voltava no eco do pescoço. Engolindo em seco, fazia do pomo de Adão uma maçã inteira, a gritar quando sacada contra essas surdas divisões de concreto. Cadê a outra raquete? Jogar com a solidão fazia quicar a cabeça com a boca do estômago. Manter-se desperto era quase sempre um desporto feliz.

ENLUTADA

Estou de luto
Pelos que matei em pensamento.
Estou na luta
Contra o armamento em massa.
Desamar é tiro e queda
Caiu? Amor é febre que dá e passa!

É cu e cura, sua coragem ameaça.
Faz engatinhar, depois engatilha.
O dedo afunda até alcançar ferida.
Bulina o medo, faz figuração e figa.
Muitas vezes, nem faz nada, espera.

Desconfigura toda uma raça com sua granada.
Bomba de sangue que recocheteia, erra de veia.
Cheia de véus, bolo de casamento com recheio de vaia
Enquanto a Terra treme, o amor lhe trai.
Que este inferno de céu só loucos atraia.

VIA MUNDO

Não sou estranha, sou estrada.
Dirijo meus passos
Sem precisar ser refreada.
Posso parecer estrangeira
Em  meio à legião de fantasmas.
Pele de bruxa reluz na fogueira
E me deixa mais pálida.
Parecer alma não quer dizer
Que tão cedo vá perecer.
Tenho medo só do que me enfada.
O além me abre horizontes
Feito uma via de mão dupla:
De um lado, arco-íris,
De outro, pote de ouro.
Tudo assim, muito certo.
Aberto caminho.

IMERSÃO

O banheiro sempre foi um dos lugares mais propícios à reflexão constante, à conversa interior, ao canto ecoado, paradoxalmente estendido pela estreiteza das paredes azulejadas, ao exercício de ser em nudez absoluta. Quantas vezes sentei-me no trono esquecida da minha majestade, por chorar escondida dos outros, mas nunca de mim, por segredar desejos, evacuar vontades, meditar para um deus humano em demasia, por aproximar-me tanto de tantas verdades impressas no tempo desgastado das cerdas das escovas de dente ou nos pelos das toalhas que vão perdendo o colorido e a aspereza a cada banho, com os ralos aparando o grosso teor das células mortas, urina, catarro e cabelos.
Lá já escorreguei, vomitei, gozei e caí. Fiquei horas deitada no chão pensando na vida, em como poderia ser o decurso dela. Já procrastinei estudo e trabalho lavando o rosto a cada trinta minutos, sem que houvesse suor, nem o menor sinal de oleosidade na pele, só pela ânsia da partida dos locais aos quais me inadequei e pela saudade do encontro com meu eu mais próximo, desmascarado de padrões, patrões ou correntes. Resguardada do medo, retoquei penteado e maquiagem, ensaiei meus próximos movimentos e falas, como se o mundo fosse um teatro shakespeariano. Mas era… Muito li enquanto aliviava outras necessidades, cometendo um ato de privacidade meio anfíbia, feito aquelas pererecas que conseguem invadir o box e querem ter um pé na água, outro no piso, fugindo da realidade pedregosa em terreno liso, escorregadio.
Ainda hoje, aprecio confessar caretas para o espelho, desafiar-me com o olhar e o corpo, treinando um Strip-tease com bocas e caras antes do chuveiro, até conversar em outras línguas, puxando da alma alguns personagens latentes, estrangeiros de si próprios. Seja em casa ou no shopping, nos bares ou em restaurantes, sempre há uma cabine vaga a me fazer divagar por um momento. Os sanitários públicos mais limpos me permitem confidenciar com algum conforto as tragicomédias da vida, quando não, a imundície rabiscada nas portas, variando entre recados de amor pornográficos, a poemas de Charles Bukovski verdadeiramente me libertam.

INEBRIANTE

Teu perfume perfura todos os instantes
Atravessa o lume bruxuleante dos castiçais
Arranca pólen, lençóis e torrentes
Não sais de banho em corrente nem com aguarrás!

Impresso à carne, ao cerne da minha questão
Elabora vertigens com o dedo apontado à lua
És criador e criatura em tua prestidigitação
Desfaz o medo através do amor maior

Teleguio-me pela ação do teu olor, meu favorito
Ornado em cor de sensações primaveris
Sobrepostas em estantes: frascos estonteantes
Feito rito de passagem, sigamos sem gris ou nós

Só seremos livres entre os sóis pintados nas telas
A sós com o quente da alma e o bem ao nosso redor
Havendo entressafra de jasmins, produziremos velas
Da aromática dos amantes, os querubins sabem de cor

A FLIGHT INTO THE OCCULT

capa-por-ara-teles2A Flight into the Occult é o primeiro trabalho solo do músico T4LES, lançado oficialmente no dia 8 de fevereiro, no Instituto de terapias holísticas Acus Natus, em Fortaleza. Fruto de sua bela caminhada espiritual, o disco apresenta 5 músicas à base de guitarra, sintetizador e percussão, sendo 4 instrumentais com títulos em inglês, caracterizando, assim, a universalidade da obra repleta de misticismo e psicodelia, contando ainda com 1 canção de bastante sensibilidade poética na única letra então cantada em português: Amor ancestral.

Foi uma tarde de domingo das mais aprazíveis, uma experiência realmente inédita, não apenas musical, mas especialmente transcendental, de interiorização profunda. Eu que havia chegado ali a sós e de coração aberto, fui tomada pela curiosidade de reencontrar o amigo e ouvi-lo executar suas composições mais recentes. Rapidamente, integrei-me a um grupo que se descalçava dos sapatos à entrada e sentava-se em círculo sobre tatames, como pedem os bons costumes orientais. A partir daí, T4LES pediu para que nos aproximássemos, nos conduzindo a uma jornada ao ocultismo que nos abraçou calorosamente até a noite em um concerto meditativo, interativo e lúdico.

Emocionei-me ante a lucidez de sua fala antes de iniciar aquele show, revelando-nos com muito orgulho, coragem e franqueza o que pôde expandir em humanidade desde o seu passado, quando se enveredou pelo heavy metal, até a busca por ressignificar sonoridades capazes de amplificar consciências. A partir dali, nossos sentidos puderam ser contemplados pela tecnologia moderna, acionada por aplicativos musicais para IPAD, com camadas pop de guitarra elétrica, além de recuperar nossa ancestralidade rítmica através de tambores, maracás, apitos e flautas indígenas.

Abrindo com Mother, trabalhamos nossa energia feminina, em reverência à mãe terra e a todas as figuras avatáricas geradoras de vida, nesse ecumenismo divinal que alcança a graça de Nossa Senhora, emprenhando-nos com a fluidez das águas purificadas por Iemanjá. Neste primeiro momento de introspecção, pudemos captar a nossa essência, em relaxamento induzido pelos acordes plácidos de T4LES que, em seguida, nos propôs um exercício de silêncio com trabalhos manuais, enquanto passava para uma execução visceral de temas líquidos e constelares em: Rainny Night e Starry Night. Durante esse momento, transmutarmos nossas dores pessoais no melhor que podemos ser, em florescimento, o que na Yoga entendemos por Sankalpa (do sânscrito, “construção mental” ou “resolução interior”), uma palavra de afirmação positiva que guardamos conosco até o fim do espetáculo.

Segundo T4LES, nada havia sido ensaiado, confirmando o clima intuitivo com que se sequenciavam todos os movimentos. Inclusive, a participação do público com percussão e instrumentos de sopro xamânicos dava o tom elevado a essa troca energética, em consonância com a alegria de nossas palmas. Ainda, uma projeção de imagens espaciais elevava o ambiente, transportando nossos espíritos a outras esferas, entre luzes, cores, planetas, luas e retratos de civilizações antigas. Durante The Frozen Music, canção predileta de T4LES, conforme o próprio me confessou, fomos conduzidos a um passeio em caravana ao Egito. Em meditação conjunta, visitamos as pirâmides e tive a oculta sensação de que já havíamos nos encontrado antes ali. Total presença.

Ao final, cada um se apresentou, comungando com os demais a sua vibração. Refletimos muito acerca do caráter transitório de todas as coisas, assim como as notações musicais, as variações de escala, tempo e ritmo. Desapegamos através do Amor, da Paz, e da Alegria, sentimentos cantados em hinos que se seguiram à ocasião dos Bis, em um encerramento deveras lindo.

Em mim, ficou impressa a Gratidão pela oportunidade de vivenciar uma música que vai além da apreciação física do som, com mais harmonia e ênfase no silêncio interior. Congratulações fraternas a T4LES pela construção iluminada desta nova senda humana, artística e espiritual. Namastê e muito sucesso!

“QUE TODOS OS SERES SEJAM FELIZES. QUE TODOS OS SERES SEJAM DITOSOS. QUE TODOS OS SERES ESTEJAM EM PAZ”.

Contatos para aquisição do álbum > Fanpage T4LES: https://www.facebook.com/abismotalles